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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

LIBERDADE = VOAR = PIPA - DIA DE VOLTAR À INFÂNCIA










No dia 19 de outubro de 2011 voltamos a ser crianças,

Que delícia, quantas surpresas!!!

Fomos até o Parque do Cristo de Araxá soltar pipas, sentir toda a liberdade que o vento, o imenso azul do céu e a vista do trabalho humano pode nos oferecer, uma mistura de trabalho humano e natureza, de infância e fantasias, de sonhos e realidade, de liberdade e grades...

Acabamos por concluir que nem o céu é o limite para tanta inspiração, arte e poesia que existe dentro de cada um de nós...

Para registrar esse momento usuários do Serviço de Saúde Mental do CAPS Maria Pirola realizaram poesias lindas para demonstrar e colocar esta sensação de liberdade e a lembrança da infância que tomou conta de todos nós naquele momento que foi mágico.

Liberdade

No tempo de soltar pipa

Fico sempre a olhar o céu,

Tenho vontade de voltar a ser criança

Para soltar pipa com os meninos da vila

A liberdade está no ar

O que agente fala se sente,

Não se descontente

Sinto-me livre no chuveiro

Para cantar e esquecer os problemas

Liberdade...

Chorar e gritar

Liberdade pra pensar,

Liberdade pra voar,

Cada um tem um gosto

Eu queria ser levado aos altos do céu

E contemplar toda a glória

Que preparada esta para os santos,

Pra sonhar precisamos da liberdade

É o que temos na vida, ela é a sua arte.

A paz e a liberdade andam juntas,

A liberdade é um presente de Deus.

Há liberdade!

Somos livres

Somos como os pássaros, deixe o vento te levar

Até o sol raiar e encontrar o destino.

A pipa traz a vontade de ser criança

E conquistar a esperança.

“LIBERTAS QUE SERÁ TAMEM”

__________________________________________________________________________________________

Poesia realizada pelos usuários do Serviço de Saúde Mental do CAPS Maria Pirola, foi realizada na Oficina Terapêutica de Poesias no dia 18 de agosto de 2011.

Inspiração: cena do filme RIO


terça-feira, 3 de maio de 2011

A DIFERENÇA COMO POSSIBILIDADE DE POTÊNCIA



Camila Bahia Leite

Hoje ao abrir a Folha de São Paulo(01/05/2011), me ative a uma reportagem que dizia: “Para comediantes, não há tabu no humor”, que dizia respeito à polêmica causada por um quadro na MTV intitulado“Casa dos Autistas”, que gerou todo um desconforto e críticas por parte doMovimento Pró-Autista e do Ministério Público Federal; além de incendiar e colocar em pauta uma discussão sobre a questão do respeito-desrespeito com relação à diferença. A reportagem desvela um contexto de situações onde a “diferença” ou aquele que é visto como “diferente” vira piada, lugar onde o imperfeito perde o lugar para o agenciamento donarcisismo-perfeição. Assim as diferenças são realçadas culturalmente. Aquele que é baixinho, magrelo, doente mental, deficiente físico, gordo, tímido, nerd,não pode ter seu lugar no mundo perfeito e padronizado... Quando se tornammotivo de piada, é isso que é dito, transmitido pela cultura “popular” massificada do culto ao perfeito, padronizado. Instala-se uma “des-educação” opressiva e estigmatizante, mostrando que o que é esperado e “politicamente correto” étudo aquilo que se encontra dentro da fronteira do padrão, do certo. E o que está fora de tais padrões, é “errado”, não deve ser aceito, valorizado. E isso não é desrespeito?

Há algumas semanas, o Brasil todo se emocionou com a tragédia ocorrida no Rio de Janeiro, onde um rapaz invade a escola fazendo dos alunos, alvo de seus tiros. Surgiu toda uma indagação sobre seele teria sido ou não vítima de bullying quando estudante dessa mesma escola.Fato que reativou inúmeras campanhas contra a violência e desarmamento em todo Brasil. Como se a violência e o assédio não fizessem parte do cotidiano de muitos locais, brincadeiras, e jocosidades dentro de nosso território de vida.Não só dentro do espaço íntimo, como também nos espaços coletivos das redesconstruídas ou destruídas no trabalho, na escola, na praça, na rua, na internet, na relação com o(s) outro(s). Como se o preconceito e a dificuldadede olhar o outro não fizessem parte do nosso cotidiano, como se pudéssemos apreciar, olhar, e viver o que a “sociedade” aprova como obelo-aceitável-padronizado. Mas a violência, o bullying, estão aí em todos os lugares, ditados pelas normatizações padronizadas e estriadas de um mundo narcisista produzido pelo consumo e pela mídia, protagonistas de um humor ácido e jocoso trazendo em si a anti-produção do preconceito e do desprezo ao que édiferente.

A reportagem lida implica-me, reportando a todos esses pensamentos, à vivência de quem trabalha com o preconceito no dia a dia, seja na vida ou no trabalho, em diversos espaços sociais. Fez-me pensar na ética que transmitimos em opiniões midiáticas ou não, na responsabilidade social das posturas que tomamos na vida, em como isso repercute no mundo, no nosso mundo, no mundo do outro, em como as aceitamos e multiplicamos ludicamente ou não. Com humor, ou sem humor.

A discussão pode tornar-se rica, quando se pensa sobre qual a apropriação que o humor pode fazer sobre a diferença, pois da mesma forma como denigre e esvazia a percepção do ser humano de direitos, pode ser veículo de informação útil, multiplicadora e responsável desfazendo osnós do preconceito no cotidiano social, potencializando uma rede de consciência crítica. E aí fica a pergunta: por que não fazê-lo em prol de uma produção de cultura lisa e humana, dentro de uma ética e estética construtiva, onde o que édiferente pode ser potencializado e transformado, pois aí vive o sentido davida, a criação. Não é repetindo a dureza inerte do padrão-estruturado-perfeito, pois se é perfeito, o que será criado? Para que? Isso é morte, não-vida. Tal qual no filme Cisne Negro (Darren Aronofsky, EUA, 2010), onde a busca da perfeição traz dor, sofrimento, loucura e conduz à morte.

Vida é o que se movimenta e traz o novo, o novo vem da diferença produzida pelo desejo-invenção e dentro da singularidade do ser humano. Cada um é um, e sendo um, é possível inventar sua própria forma de estar no mundo, compondo um campo heterogêneo e com possibilidades de criação e busca de contatos produtivos repletos de mais vida, formando novas redes, múltiplas. Citando aqui outro filme, Como Estrelas na Terra – Toda Criança é Especial (Aamir Khan, India, 2007), a estória do garoto Ishann, que traz uma nova forma de pensar a educação e as relações que a permeiam, construindo uma percepção singular do mundo infantil e sua imanência. É a transformação da realidade através da potencialização da diferença, é promoção de vida contagiante. Um garotinho que se sentia diferente, mas não sabia como ou por que, foi estigmatizado pela família incompreensiva, pela escola excludente e que felizmente encontrou alguém que se sentiu provocado e o percebeu como potencial criador-inventor e se fez ponte entre o preconceito-dor e a potência de vida-arte.

Fica o apelo, de ater-se criticamente ao que é produzido, de não cair na anti-produção, pela simples necessidade de produzir, acabando por produzir algo acultural, anti-etico eanti-estético. E que olhem para a diferença, não como quem olha para um “diferencial” que é ilusoriamente instituído pela competição mercadológica a se ver como um mero produto da dura-estriada anti-produção capitalista, que acaba por padronizar o tal diferencial. Mas olhem para a diferença, buscando no diferente, algo novo, que instigue a pensar, criar e vir a ser algo mais, para além do que já é vivido, consciente do que é vivido dentro de sua própria realidade desafiando suas virtualidades e atravessamentos.



Araxá, 01/05/2011

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Possibilidades da comunicação não violenta - Jonas Melman


Em nossos tempos, o aumento da violência se transformou em um problema central para a humanidade. A epidemia de violência é um fenômeno mundial, e prolifera em todos os segmentos sociais. As forças capazes de gerar violência habitam a subjetividade de cada um de nós. Em certas circunstâncias, ninguém está isento de agir com violência.
Diariamente, a mídia expõe as mazelas de nosso mundo. Devemos lembrar que uma parte significativa dessa violência é silenciosa e ocorre no interior de nossos lares, mostrando que ainda reconhecemos que a violência é um instrumento legítimo para superação dos conflitos familiares. Acreditamos e legitimamos a violência, atestando nossa incapacidade de encontrar formas saudáveis para superar os impasses. O poder do mais forte prevalece. Os mais vulneráveis costumam ser as vítimas: crianças, adolescentes, mulheres e idosos.
Há pelo menos cinco mil anos, as estruturas sociais vigentes que norteiam nossas relações econômicas, de família, educação, justiça, convivência com a natureza, cultura e comunhão espiritual estão fundadas numa lógica de dominação.
Como compreender a violência familiar? Como ajudar as famílias que deveriam amar e cuidar do bem-estar de todos os integrantes, mas acabam produzindo tanto sofrimento?
A fixação dessa lógica da dominação se inicia precocemente. Culturas mais violentas tendem a usar a punição e a recompensa como método para a aprendizagem da obediência à ordem estabelecida.
Somos permanentemente avaliados, criticados e julgados pelos responsáveis pela tarefa pedagógica. A noção do certo e do errado, do aceitável e do inaceitável é transmitida sem reflexão. As estruturas sociais lançam mão de sistemas de pensamento e de modalidades de comunicação que se colocam a serviço desse processo de instituir a dominação como modelo hegemônico de relação entre as pessoas. O elogio e a crítica constituem instrumentos essenciais para reforçar certos comportamentos e atitudes.
Nossa mente foi formatada para traduzir o que chamamos de realidade utilizando o julgamento e a crítica. Julgamos uns aos outros sem muita consciência. Num ambiente familiar crítico e exigente, as pessoas não se sentem seguras para expressar seus sentimentos. O medo ocupa um lugar central nos processos educativos voltados à obediência. Pessoas inseguras precisam de proteção, e são facilmente manipuladas. Aprendemos a temer a autoridade, no lugar de respeitá-la.
O psicólogo Marshall Rosemberg desenvolveu a “Comunicação Não Violenta” (CNV) como uma metodologia centrada em ouvir e falar com atenção, respeito, sinceridade e empatia, estimulando um desejo mútuo de dar e receber de forma plena. A CNV procura se afastar do funcionamento mental baseado em críticas e julgamentos, atuando de forma a estimular a compreensão e o respeito mútuo.
O autor sugere que precisamos aprender a nos comunicar expressando nossas necessidades e sentimentos. Uma linguagem projetada para servir à vida e não às autoridades, que contribua para fomentar conexões voltadas ao bem-estar de todos. As necessidades humanas correspondem à vida se manifestando em nós. Os seres humanos compartilham as mesmas necessidades: segurança material e emocional, amor, empatia, diversão, autonomia e busca de um sentido de vida.
Necessidades nunca estão em conflito. As estratégias que escolhemos para alcançar as necessidades é que podem gerar conflitos. Confundimos, com freqüência, necessidades e estratégias. Ter vontade de assistir TV, ir ao cinema ou andar de bicicleta são estratégias para se divertir. Necessidades não fazem alusão a pessoas, ações ou coisas específicas.
Quando contribuímos para atender às necessidades reais de outras pessoas, nos tornamos pessoas mais felizes. Necessidades não atendidas geram mal-estar, raiva e frustração.
É essencial acolher o sofrimento dos familiares para que eles possam encontrar uma maneira mais pacífica de se relacionar. Agressores também precisam de ajuda e de muita empatia para deixar de ser agressores. Segundo os princípios da Cultura da Paz e da CNV, a violência pode ser entendida como expressão trágica da condição humana. Sofrimento, desigualdade, injustiça, desejo de poder sobre o outro geram violência. O ato violento pode ser compreendido como um pedido de ajuda de um ser humano que não consegue expressar a si mesmo de forma mais saudável.
Precisamos aceitar o desafio de traduzir todas as críticas e juízos de valor numa linguagem que revele as necessidades não atendidas. Uma abertura para o diálogo, para ouvir o outro como um legítimo outro, com respeito e apreço. Quando necessidades e sentimentos são compartilhados de forma clara, eles aproximam as pessoas e os grupos em conflito.
Jonas Melman, psiquiatra e psicoterapeuta, mestre pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, é assessor da Área Técnica de Cultura de Paz da Secretaria Municipal da Saúde de SP. E-mail: melman@terra.com.br

http://www.unesp.br/aci/jornal/220/suplec.php

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Ego e a Esquizoanálise

Normalmente, estamos acostumados a ouvir e ler sobre o valor do ego. Inclusive, é ele idolatrado como mediador de conflitos e negociador de atitudes que fazem do homem, um bom homem: adaptado, cordato e capaz de suportar frustrações.
Ele nos dá a realidade: nua e crua. E ele nos acomoda na realidade submissos e resignados.
Um ego forte é resiliente. Se recompõe, se reestrutura... sofre e depois de um tempo assimila o mal estar e com ele convive.
Segundo muitos, é ele o responsável por suprimirmos de nossa vida o reprimido e seus conflitos.
Deleuze discordava... Dizia que era a própria repetição que gerava as repressões e seus conflitos derivados.
Propõe, então, matar o ego.
Egóicos, o escutamos temerosos.
Afinal, somos apegados ao nosso mundinho e ao nosso Eu.
Contudo, é o Eu um dos mais poderosos inimigos da mudança.
Ele nos apequena, nos restringe e nos limita.
Ele nos faz cópias e boas cópias, tais quais as que querem o mundo, status quo, mundo cinzento e de repetições.
O que impede o ego? A singularidade, a multiplicidade, o devir, ou seja, a individuação como sujetivação livre e libertária.
Há outro mundo para além deste, que bloqueia a atualização de virtualidades potentes.
Há vida após a morte do ego: vida livre e dada à potência dos acontecimentos que emergem na florescência do nosso inconsciente produtivo e maquínico, onde o desejo e produção se conectam nos redemoinhos da vida que é vontade de potência, bons encontros e paixões alegres, espaço liso e nomadismo.
É o que pode um corpo que se libera e já não sendo mais espírito acorrentado( Nietzsche), se aventura na exploração da vida, terna e suave, solidária e gentil, dos guerreiros que se inventam como permanente libertação.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pintura: Metamorfose de Narciso - Salvador Dali

Texto: Narciso Cego
 Thiago de Mello

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me freqüento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo – pânico mudo -
entre o sonho e o sonhador.

Esquizoanálise e Potência de Vida

Neste momento, quando nos preparamos para o II Congresso Internacional de Esquizoanálise e Esquizodrama, que se realizará em Uberaba, nos dias 10, 11 e 12 de setembro de 2010, refletimos no fluxo dos acontecimentos: Qual é o rosto da esquizoanálise?
A esquizoanálise é uma corrente de pensamento e intervenção que se pauta pela afirmação da vida e que entende a vida e a realidade como devir.
E o devir que é a própria essência do real, rompe com a idéia de permanência, imutabilidade, estabilidade e identidade rígida e fixa.
De fato, a potência de vida e da vida que emerge na compreensão esquizoanalítica é marcada pela singularidade, pela multiplidade e pela individuação.
Num mundo de cópias de normalidade, de repetições e identificações, inclusive de exclusão do que não enquadra, a esquizoanálise surge revelando a potência da diferença.
Neste contexto, é insurgente, rebelde e imanente ao pensamento e ato de mudança.
Antes, toda mudança era pensada pela idéia de escassez e falta, asssim, se movia pela negatividade.
A esquizoanálise acentua que a mudança se dá na potência da vida que é excesso.
Afirma, assim, seus criadores: a atualização do virtual não se opera pela negatividade nem pelo ressentimento e culpa, se dá pela diferença, pela divergência e pela criatividade.
Nosso mundo é mundo de evitação do novo, e, portanto, valoriza a repetição e exclui a diferença; idolatra a resiliência e marginaliza a resistência; e, por fim, captura a criatividade, quadriculando-a como cultura midíatica.
Como romper com este império de manutenção do status quo?
Deleuze pode desvendar o papel da dramatização; Guattari, da miltância que age mudando já na perspectiva da revolução molecular.
Deriva-se daí o valor do Esquizodrama e dos movimentos sociais minoritários e afirmativos.
Tudo pela vida... Pelo direito à diferença... E por um outro mundo possível e necessário.
Muito semelhante ao conceito de Hebe de Bonafini que disse que revolução se faz, fazendo, se faz, partilhando e se faz dando-se doando-se...
Enfim, afirmando-se a vida e pela vida no novo já...

Jorge Bichuetti
www.jorgebichuetti.blogspot.com.br

terça-feira, 8 de junho de 2010

Diário de Bordo: Caminhos e Lutas

Cada passo no caminho é um invento de vida. Vida repetida ou vida nova...
Amanhece, e o novo dia chega com infinitas oportunidades. Encontros, desencontros... alegrias, tristezas...
Já ousaste pensar no que pode um homem se potencializa a vida no correr dos minutos de um dia?
Podemos dar o abraço de carinho e ternura, florindo o caminho dos nossos amores...
Podemos dizer não... a tudo que oprimme e desumaniza a vida...
Podemos sonhar com uma vida diferente, onde o nosso coração saiba voar com os passarinhos, sorrir com as flores, lutar com os guerreiros e amar com os amantes, que sob os floxos de paixão da lua se fazem encantados...
Podemos gritar que não queremos o fim do 13° salário, já aprovado pela câmara dos deputados...
Podemos abrir fissuras na opressão e conquistar espaços de liberdade...
Podemos amar a todos, e movidos pela compaixão e pela solidariedade, criar atos de de generosidade acolhendo os filhos do nada e de ninguém...
Podemos nos aventurar e tirar nossas máscaras, sendo o que sonhamos e não o que nos obrigam a ser...
Construimos nossos destinos... Passivamente, no sim da covardia que aceita silenciosa os alvitres da exclusão... Ou, com valentia exigindo direitos humanos, direito à diferença, igualdade e justiça social.
Famintos, mulheres violentadas e machucadas, crianças na rua, jovens perdidos e desiludidos, desempregados, negros, gays, índios... Todos sofrem e clamam no chão, que o céu os salvem das mazelas deste mundo.
O céu pede mãos para se tornar presente nos horizontes do mundo.
A tua, a minha, a nossa mão que é necessária...
Diga, faça algo: ame com esperança e ternura, partilha e doação.
Diga, faça algo: lute... um outro mundo ainda é possível.



SETEMBRO, 10, 11 e 12. EM UBERABA, MG, OCORRERÁ O I° CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESQUIZOANÁLISE E ESQUIZODRAMA: 
POR UMA NOVA TERRA, POR UM POVO-POR-VIR...
VENHA! PARTICIPE!

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ENVIE SEU TEXTO, SEU COMENTÁRIO, SEU POEMA...

Lya Luft : A idade e a mudança

Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível...
A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito. Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?' 
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se "mudança".
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol.
Rejuvenesceu. Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.
Olhe-se no espelho...

Lya Luft

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Despedida

Há pessoas que vem e que vão.
Há pessoas que marcam nossas vidas.
Deixam lembranças,
Avançam para outros lugares,
Outras esperiências.
O que foi compartilhado,
Muito se vai outro tanto fica.
Tudo se multiplica.
Intensifica.
Resiste ao tempo.
E afeta a vida!

Ao nosso amigo Fábian Luis Bazan,
desejamos sucesso em seus novos caminhos.

sábado, 1 de maio de 2010

Teatro: GRUPO GALPÃO - Till, a saga de um herói torto

Um dia, na eternidade, o Demônio aposta com Deus que se tirasse do homem algumas qualidades, ele cairia em perdição. Deus, aceitando o desafio, resolve trazer ao mundo a alma de Till. Vivendo em uma Alemanha miserável, povoada de personagens grotescos e espertalhões, logo de início nosso protagonista é abandonado em meio ao frio e a fome e descobre que a única maneira de sobreviver naquele lugar é se tornar ainda mais esperto e enganador. Assim começa sua saga cheia de presepadas e velhacarias.Criado pela cultura popular alemã da Idade Média, Till é o típico anti-herói cheio de artimanhas e dotado de um irresistível charme. Um personagem que tem parentesco com outros tipos de várias culturas, por exemplo, que se assemelha muito ao nosso Macunaíma ou ao ibérico Pedro Malasartes. Além de Till e uma infinidade de rústicos personagens medievais, a peça conta também a história de três cegos andarilhos que buscam a redenção, sonhando alcançar as torres de Jerusalém e salvar o Santo Sepulcro das mãos dos infiéis.Num mundo em que é cada vez mais marcante a presença dos excluídos e dos desprovidos de qualquer suporte material, a parábola das aventuras do anti-herói Till Eulenspiegel torna-se de uma atualidade inquietante.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Política e Subjetividade

Resenha do livro Freud e o Problema do Poder,
de León Rozitchner, SP, Editora Escuta, 1989, 189 páginas.

A relação do indivíduo com o mundo tem sido ao longo do tempo pensada por diferentes correntes teóricas. Os conceitos variam, é claro, não só dependendo do lugar teórico-político de onde falam as correntes, como também das diferentes implicações que têm com o objeto que produzem.

O freudomarxismo, através do filósofo (com prática clínica) Rozitchner, apresenta-nos a tese sobre a produção do sujeito e sua isomorfia com a estrutura social, na série de conferências proferidas no México em 1981, publicadas em Freud e o Problema do Poder (Ed. Escuta).

Aproximadamente dez anos antes, o autor escreveu Freud y los limites del individualismo burgués (Siglo Veintiuno), um dos mais significativos trabalhos realizados pelo movimento freudomarxista. Ao longo de 500 páginas, os artigos Mal Estar na Civilização e Psicologia das Massas e Análise do Ego, ambos componentes da chamada obra social de Freud, dão suporte às idéias do autor. Estas consistem em afirmar que "cada sujeito é também núcleo de verdade histórica" e que "o sistema de produção também é produtor do aparelho psíquico". Considera-se, nesta obra, que a teoria e a prática psicanalítica estariam entranhadas pela subjetividade "burguesa" e que uma leitura marxista de Freud necessariamente provocaria novas abordagens. A Psicanálise, assim, poderia evidenciar as estruturas objetivas do sistema de produção conceituadas por Marx, presentes como determinações na subjetividade dos sujeitos. Tais idéias serão expostas com clareza e síntese nas conferências ora editadas.

O freudomarxismo não teve no Brasil a repercussão que obteve na Argentina e em alguns outros países. Reich, Bernfeld, Fenichel e Fromm são alguns dos nomes associados a este movimento, embora a idéia de uma aproximação de psicanálise e marxismo tenha sido realizada de maneiras substancialmente distintas: desde uma utilização meramente formal dos discursos até a tentativa de uma construção teórico-prática. No campo da filosofia destacam-se Marcuse, Althusser e Sartre, que ressaltam tal articulação como importante para a compreensão dos processos de subjetivação.

Rozitchner estuda a problemática da repercussão na subjetividade das chamadas condições objetivas, e o que significam as condições subjetivas no desenvolvimento dos processos coletivos. Situa o problema do poder, portanto, na intrínseca relação co-determinante do indivíduo e do coletivo. Aponta que, em geral, estes dois pólos estiveram separados na análise das diferentes perspectivas teórico-políticas ou, quando muito, pensadas numa relação que estabeleceria pontos de contato mas garantiria suas formas próprias de produção.

O autor investiga primeiramente o processo de interiorização do poder na formação do sujeito. Sustenta a tese de que Édipo será a primeira "forma" subjetiva, e que só podemos entendê-lo através do Édipo coletivo/histórico. Encontra em Psicologia das Massas e Análise do Ego a evidência do poder individual debatendo-se na abertura para o poder coletivo. O drama do enfrentamento da criança com as normas surge sob a forma de um duelo; só a partir da negação do próprio desejo, poderá incluir-se na cultura. A "solução" do complexo de Édipo organiza uma consciência que não tem consciência de sua origem, posto que a ordem social oculta no sujeito o lugar onde se implanta. Esta "saída" infantil – saída em falso – resultaria em submissão à lei e interiorização de um poder despótico, que persistiria como forma matriz da organização individual dentro das instituições. Rozitchner diz que Freud "está fazendo uma psicologia como ciência histórica": "A história, em seu sentido amplo, começa em uma rebelião coletiva pela liberação dos submetidos". O autor retoma, também, a noção de riqueza para Marx, entendida como a produção de novas capacidades, poderes de produção e prazer. Esta noção seria desvirtuada na suposta universalidade objetiva de intercâmbio de mercadorias. O fundamento produtor dos indivíduos traria o sentido de cooperação, princípio também da ordem histórica. O conteúdo e as formas organizadoras do aparelho psíquico dependeriam da forma social que o produz. A recuperação deste poder expropriado, assim, seria fundamental para transformar qualquer processo histórico, através do retorno às fontes do poder social, onde o descobrimento do coletivo/individual, necessariamente, suscitaria a transformação pessoal dos sujeitos.

A formação de representações que constituem subjetivamente o campo da consciência e da subjetividade, diz Rozitchner, concede a possibilidade de nos referirmos a ela distanciando-nos e ocultando-nos da sua origem. Sustenta-se, assim, verdades construídas/produzidas, naturalizadas. Lembrando que a mercadoria, enquanto valor, é fetiche, posto que parece que o contém em si mesma, reafirma que é o poder despótico, seu lugar simbólico e o campo do imaginário que permitem sua instalação, sendo absolutamente fundamental tal desvendamento.

O autor aborda o tema, ainda, utilizando sua experiência no processo político argentino, concluindo que o "psicanalista não pode ser psicanalista e político, mas necessariamente um psicanalista-político".

Poderíamos considerar que a proposta de Rozitchner não tenta integrar os dois saberes em que se apóia, pelo menos no sentido de uma descaracterização epistemológica. Por outro lado, suas postulações "isomórficas" indicam uma busca de equivalência na co-determinação do psiquismo e do social.

Ao trabalhar a concepção de poder, Rozitchner fará algumas referências à obra de Foucault. Entretanto, se em alguns momentos trabalha com a idéia de corpo submetido e disciplinado onde a dominação se inscreve (referência à noção de poder disseminado), em outros, mantém a análise das relações de poder como estando localizada no aparelho de estado, imposta ao coletivo via identificações/ideologias. Ele atribui, então, poder "macro" ao coletivo e poder "micro" ao individual. Cabe esclarecer que a noção de micropoder em Foucault não relaciona poder com lugar.

Outras leituras podem sugerir diferentes análises sobre a questão da subjetividade. Guattari, por exemplo, considera que a psicanálise, mantendo a concepção de neutralidade, acaba por consolidar certas produções de subjetividade. Mais, que certas elaborações psicanalíticas seriam um modo de pensar uma das formações do inconsciente, conceito que a própria psicanálise produziu, mas jamais comporiam uma teoria geral sobre o inconsciente. Ao invés de tomar o conceito de ideologia, o substitui pela noção de produção de subjetividade, porque a questão para este autor não é apenas a de uma transmissão de significações por meio de enunciados, nem a adoção pura e simples de modelos de identidade ou identificações. Tratar-se-ia de sistemas de conexão direta entre diversas produções e a instância psíquica. Nesse sentido, tanto os marxistas como os psicanalistas são criticados, posto que as mutações da subjetividade não ocorreriam somente no registro ideológico ou edípico. Nem produção econômica, nem economia libidinal: Guattari enuncia a economia coletiva do desejo, atravessado por uma multiplicidade de produções que se revelariam em cada acontecimento, singularmente.

Certas questões ainda se colocam diante do freudomarxismo. Uma integração teórica, certamente, conduziria à descaracterização das teorias envolvidas. O que não é necessariamente um ultraje, ainda mais se a construção teórica que se segue é interessante e útil. Preservá-las, conservando suas conceituações, acabaria por manter lacunas, segundo o próprio freudomarxismo. Articulá-las, como pretende o autor, coloca um grave problema de teorização, ali onde a prática exige maior precisão; o que poderia explicar, sem necessariamente justificar, o abandono do freudomarxismo por parte de psicanalista que se afirmam marxista.

A noção de verdade, a perspectiva essencialista, os marcos interpretativos positivistas constituem parte de uma problemática complexa para aqueles que ressaltam as contribuições significativas do movimento freudomarxista.

A contribuição central deste último foi ter suscitado uma análise das instituições burguesas, do fascismo, e ter questionado a prática psicológica apolítica. Trouxe influências ainda, para que a partir de "maio de 68" não se pudesse ignorar com facilidade a política do desejo.

A importância da ordem histórico-social e sua relação com o inconsciente, ressaltada pelo freudomarxismo, a noção de subjetividade e a de transversalidade em Guattari, a redefinição de poder em Foucault, e ainda outras idéias, como os conceitos de implicação advindos da socio-análise e o de imaginário social em Castoriadis, apontam para uma "nova" clínica: a clínica onde as forças presentes no inconsciente constituem necessariamente um campo de análise mais amplo do que o da análise do inconsciente edípico. Uma teoria que ainda está para ser escrita, uma prática com muitas indagações.

Maria Beatriz de Sá Leitão
Psicanalista e Analista Institucional.
Co-autora dos livros:
Práticas Grupais (Campus, 19) e Grupos:
Teoria e Técnica (Graal, 19).

Regina D. Benevides de Barros
Professora do Departamento de Psicologia da UFF
e Analista Institucional.
Co-autora do livro: Análise Institucional no Brasil
(Ed. Espaço e Tempo).



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Chega de Angústia, Chegou a Depressão!

Nestas duas últimas décadas, sobretudo nos anos 90, aconteceu uma mudança radical. Mudou a tonalidade dominante das queixas e do sofrimento psíquico. Nosso mal-estar passou a se expressar de maneira nova, trocou de dialeto, de aparência e de cheiro: somos cada vez menos angustiados e cada vez mais deprimidos.

A angústia foi boa companheira da modernidade durante quase dois séculos: do romantismo ao existencialismo, ela se encarregou de representar o mal-estar de nossa cultura.

Além do gosto acre de suor frio, além da sensação de vazio interno, de suspensão sem fôlego, além do sofrimento ser angustiado foi, nessa época toda, um chique literário e filosófico. Ou melhor, uma espécie de marca retórica que confirmava a seriedade das apostas e do envolvimento com a verdade. Você quer ser levado a sério? Mostre-me suas angústias! Elas não mentem.

Hoje, o mesmo passou a valer para a depressão. Além do bafo de dentes não escovados e do relento da cama desfeita, a depressão também é um chique. Desde ‘Darkness Visible’ de William Styron (em 1990), se multiplicam os relatos de catástrofes depressivas e lutas heróicas. Em dez anos, já são centenas, uma espécie de gênero literário autônomo.

Essa constatação cultural e clínica é corroborada pela inquietação dos organismos internacionais que monitoram nossa saúde. A depressão é hoje nos países ocidentais, o inimigo número 2: a condição mais invalidante depois das doenças cardíacas. É um fato no mínimo curioso para um sintoma que, até 15 anos atrás, mal era reconhecido em sua autonomia.

O que aconteceu? Uma epidemia? Algum novo vírus? Sem dúvida, a indústria farmacêutica sabe promover as doenças para as quais ela tem um remédio com boa perspectiva comercial. Ou seja, ela encontra um remédio, em seguida nomeia a doença curada por ele, a faz existir culturalmente e, portanto, nos sugere (ou impõe) sofrer segundo sua forma. O que garante que a gente recorra ao remédio que está na origem da empreitada. De fato, os antidepressivos comercializados no fim dos anos 80 inauguraram o sucesso da depressão. Foi com a descoberta do Prozac que a depressão passou a existir como fenômeno cultural e se constituiu como uma entidade nosográfica popular.

Nessa direção, vale a pena ler o livro de David Healy, “The Antidepressant Era” (Harvard 1998). Healy argumenta que a idéia da depressão como patologia específica foi um achado dos laboratórios à caça de clientes para sua nova invenção: os remédios que aumentam a serotonina (Prozac, Paxil, Zoloft etc.). De fato, nos últimos anos, várias pesquisas vêm mostrando que o déficit de serotonina talvez não seja a razão biológica única, ou mesmo decisiva da depressão, e sugerem uma visão mais complexa tanto das depressões quanto de sua abordagem terapêutica.

Nesse clima, seria tentador considerar que o sucesso cultural da depressão seja só um efeito da invenção dos antidepressivos. Mas a idéia não alcança.

Seria impossível afirmar, por exemplo, que o sucesso da angústia foi produzido pela invenção dos ansiolíticos: a angústia começou bem antes. Em outras palavras, as formas de nosso mal-estar não dependem só das sugestões farmacêuticas.

Resta que, neste fim de século, com a ajuda dos laboratórios, a depressão ganhou da angústia. Hoje parece mais interessante (e mais bem recebido socialmente) ser deprimido do que angustiado. A depressão parece mais verdadeira, como se ela manifestasse o que somos, melhor do que a angústia.

Por que? Posso propor uma hipótese: a angústia foi a primeira forma do mal-estar moderno, a expressão do drama de gerações que renunciaram ao mundo ordenado por tradições e hierarquias e tentaram caminhar por conta própria. Ela é a companheira das grandes expectativas, dos futuros incertos, sonhados e receados. Ela é, em suma, o mal-estar do liberto: e agora? O que fazer? Aonde ir?

Ora, contemporânea à chegada do Prozac e da depressão, surgiu (e vem ganhando terreno) a idéia de que a história acabou: basta de expectativas e sonhos incautos. Nem tudo é perfeito, mas alcançamos a época dos ajustes finais. Não cabe mais projetar grandes mudanças e sofrer entre anseios e ansiedades, se perguntando como as coisas do mundo vão ficar. O mundo está mais ou menos resolvido. Está na hora de se ocupar da gente, de sorrir, ou fazer caretas no espelho, até ficarmos convencidos de que somos felizes e bonitos.

Com isso, ficamos, sobretudo, deprimidos, pois qualquer furúnculo na ponta do nariz afeta o que mais nos importa: a nossa própria imagem. É uma razão para não sair de casa, ficar na cama, deixar de ser e de fazer, contemplando no espelho o retrato de nossa inadequação.

O anseio de futuros gloriosos, em suma, está sendo substituído por uma inconsolável e preguiçosa tristeza: o furúnculo especular nos imobiliza e, assim como a consciência para Hamlet, nos torna, eventualmente, todos covardes.

Trocam-se, por assim dizer, aspirações e ideais, por um bom creme antiacne.
Contardo Calligaris
Folha de São Paulo

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Carta aos Donos do Mundo

Meus Senhores:

Dirijo-me à Vossas Excelências para falar do Haiti.
Ia escrever uma crônica intitulada - "Äi de ti, Haiti" , mas isto não passa de um belo jogo de palavras e não quero fazer uma nova jeremiada. Venho, portanto, Senhores Donos do Mundo, com uma proposta concreta. Por isto, poderia intitular este texto de "Como salvar o Haiti". Pretensioso, não? Claro que eu poderia me dirigir especificamente ao Eike Batista da Vale do Rio Doce, que está fazendo e acontecendo, ajudando até a Madona. Aliás, ele, ou qualquer milionário sozinho poderia salvar o Haiti. Afinal, o que é um país com pouco mais de 27 mil km2, com apenas 9 milhões de pessoas? Não passa de uma grande cidade brasileira ou mexicana! Será que não conseguimos salvar sequer uma cidade ou uma ilha?

Mas estou propondo algo menos personalista. Se descobrirmos o modo de salvar o Haiti, vocês hão de concordar, estaremos descobrindo como salvar este mundo. É sério. E digo logo: ou salvamos o Haiti, ou perecemos todos.
Senhores Donos do Mundo: vamos transformar o Haiti, que tem sido um território de desgraças num laboratório da vida. E ampliando algo que disse antes, reafirmo: se não conseguirmos salvar o Haiti, näo conseguiremos salvar a África. Se não conseguirmos salvar o Haiti e/ou a África não conseguiremos salvar o mundo.
Vou mais longe: não podemos continuar erguendo brindes no convés do Titanic. O navio já se chocou com o iceberg e começa a vazar água na casa de máquinas. Não é hora de disputar quem vai fazer a última ceia na mesa do comandante.
Ou salvamos o Haiti ou naufragamos todos. Afinal, é apenas um pedacinho de país. E se não conseguimos salvar essa coisinhazinha miúda lá no Caribe, então, Senhores, é melhor decretar a falência do ser humano. tocar logo fogo na Amazônia e degelar nossas últimas esperanças.

Meu caro operário Lula: o Senhor é hoje um dos ""donos do mundo" como reconhece a imprensa internacional. Pois convença os seus colegas que não basta aquela minguada tropa da ONU, dirigida heróicamente pelo Exército Brasileiro. Não basta um socorro de emergência. Vamos fazer um projeto a médio e longo prazo. Urge fazer, em escala mundial, um PAC (Plano de Ação Continuada) e uma UPP ( Unidade da Polícia Pacificadora), para devolver aos haitianos o que o mundo lhes roubou sistematicamente.
Comecemos pelos grandes devedores históricos. Ora, a Espanha, a França e os Estados Unidos tëm nisto uma responsabilidade incomensurável. A Espanha porque foi a primeira exploradora do país, a França napoleônica porque espoliou a colônia, prendeu e matou seu lider Henri Christophe e os USA por ter ocupado (para nada) com seus "marines" o Haiti, por mais de 20 anos.
Obama, você que é preto, descendente de escravos, viveu na África e chegou à presidência dos Estados Unidos, vai nessa, junte-se ao "Cara" aqui do Brasil e faça história.
Pessoas de coragem e de caráter como Zilda Arns, que lá sucumbiu tragicamente tentando tenazmente melhorar a vida dos haitianos, podem fazer diferença. Mas a questão ali e em outras partes não pode ser resolvida mitigando uma ou outra necessidade. Afinal, para que serve a globalização? Só para enriquecer os ricos?
Volto àquela metáfora marítima tão verdadeira quanto pedagógica: o Haiti assemelha-se a uma pequena embarcação à deriva no mar da história. Diante do Titanic, é quase nada, não passa de canoinha, de um piroga.
Se não conseguirmos salvar essa canoinha é melhor desistir de salvar o Titanic.

(*) Estado de Minas 18.01.2010.
Affonso Romano de Sant'Anna

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Vida nua, vida besta, uma vida

Ao reduzir a existência ao seu mínimo biológico, o biopoder contemporâneo nos transforma em meros sobreviventes

O contexto contemporâneo se caracteriza por uma nova relação entre o poder e a vida. Por um lado, uma tendência que poderia ser formulada como segue: o poder tomou de assalto a vida. Isto é, ele penetrou todas as esferas da existência, e as mobilizou inteiramente, pondo-as para trabalhar. Desde os gens, o corpo, a afetividade, o psiquismo, até a inteligência, a imaginação, a criatividade, tudo isso foi violado, invadido, colonizado, quando não diretamente expropriado pelos poderes. Mas o que são os poderes?
Digamos, para ir rápido, com todos os riscos de simplificação: as ciências, o capital, o Estado, a mídia. Sabemos, no entanto, que os mecanismos diversos pelos quais eles se exercem são anônimos, esparramados, flexíveis, rizomáticos. O próprio poder tornou-se "pós-moderno": ondulante, acentrado, reticular, molecular. Com isso, ele incide diretamente sobre nossas maneiras de perceber, de sentir, de amar, de pensar, até mesmo de criar. Se antes ainda imaginávamos ter espaços preservados da ingerência direta dos poderes (o corpo, o inconsciente, a subjetividade) e tínhamos a ilusão de preservar em relação a eles alguma autonomia, hoje nossa vida parece integralmente subsumida a tais mecanismos de modulação da existência.
Até mesmo o sexo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé, nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos mecanismos de controle e monitoramento, se é que alguma vez tal exterioridade fosse cabível. Para resumi-lo numa frase: o poder já não se exerce desde fora, nem de cima, mas como que por dentro, pilotando nossa vitalidade social de cabo a rabo. Não estamos mais às voltas com um poder transcendente, ou mesmo repressivo, trata-se de um poder imanente, produtivo. Como o mostrou Foucault, um tal biopoder não visa barrar a vida, mas tende a encarregar-se dela, intensificá-la, otimizá-la. Daí nossa extrema dificuldade em situar a resistência, já mal sabemos onde está o poder, e onde estamos nós, o que ele nos dita, o que nós dele queremos, nós nos encarregamos de administrar nosso controle, e o próprio desejo está inteiramente capturado. Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida como nessa modalidade contemporânea do biopoder.
É onde intervém o segundo eixo que seria preciso evocar, sobretudo em autores provenientes da autonomia italiana. Resumo tal tendência da seguinte maneira. Quando parece que “está tudo dominado”, como diz um rap brasileiro, no extremo da linha se insinua uma reviravolta: aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, “a vida”, revela no processo mesmo de expropriação, sua potência indomável.
Tomemos apenas um exemplo. O capital precisa hoje não mais de músculos e disciplina, porém de inventividade, de imaginação, de criatividade, de força-invenção. Mas essa força-invenção, de que o capitalismo se apropria e que ele faz render em seu benefício próprio, não só não emana dele, como no limite poderia até prescindir dele. É o que se vai constatando aqui e ali: a verdadeira fonte de riqueza hoje é a inteligência das pessoas, sua criatividade, sua afetividade, e tudo isso pertence, como é óbvio, a todos e a cada um. Tal potência de vida disseminada por toda parte nos obriga a repensar os próprios termos da resistência.
Poderíamos resumir esse movimento do seguinte modo: ao poder sobre a vida responde a potência da vida, ao biopoder responde a biopotência, mas esse “responde” não significa uma reação, já que o que se vai constatando é que tal potência de vida já estava lá desde o início. A vitalidade social, quando iluminada pelos poderes que a pretendem vampirizar, aparece subitamente na sua primazia ontológica. Aquilo que parecia inteiramente submetido ao capital, ou reduzido à mera passividade, a “vida”, aparece agora como reservatório inesgotável de sentido, manancial de formas de existência, germe de direções que extrapolam as estruturas de comando e os cálculos dos poderes constituídos.
Seria o caso de percorrer essas duas vias maiores como numa fita de Moebius, o biopoder, a biopotência, o poder sobre a vida, as potências da vida1. Mas aqui isto será feito sob um crivo particular, o do corpo. Pois tanto o biopoder como a biopotência passam necessariamente, e hoje mais do que nunca, pelo corpo. Assim, proponho trabalhar aqui três modalidades de "vida", isto é, três noções de vida, acompanhados de sua dimensão corporal correspondente, percorrendo de um lado a outro a banda de Moebius mencionada.

O "muçulmano"

É preciso começar pelo mais extremo - o "muçulmano". Retomo brevemente à descrição feita por Giorgio Agamben a respeito daqueles que, nos campos de concentração, recebiam essa designação terminal2. O "muçulmano" era o cadáver ambulante, uma reunião de funções físicas nos seus últimos sobressaltos3. Era o morto-vivo, o homem-múmia, o homem-concha. Encurvado sobre si, esse ser bestificado e sem vontade tinha o olhar opaco, a expressão indiferente, a pele cinza pálida, fina e dura como papel, já começando a descascar, a respiração lenta, a fala muito baixa, e feita a um grande custo...
O "muçulmano" era o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer4. Por que os detidos dos campos chamavam de “muçulmano” aqueles que tinham desistido de viver, já que se tratava sobretudo de judeus? Porque entregava sua vida ao destino, conforme a imagem simplória, preconceituosa e certamente equivocada de um suposto fatalismo islâmico: o “muslim” seria aquele que se submete sem reserva à vontade divina.
Em todo caso, quando a vida é reduzida ao contorno de uma mera silhueta, como diziam os nazistas ao referir-se aos prisioneiros, chamando-os de “Figuren”, figuras, manequins, aparece a perversão de um poder que não elimina o corpo, mas o mantém numa zona intermediária entre a vida e a morte, entre o humano e o inumano: o sobrevivente. O biopoder contemporâneo, conclui Agamben, reduz a vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes. De Guantánamo à Africa, isso se confirma a cada dia.
Ora, quando cunhou o termo de biopoder, Foucault tentava discriminá-lo do regime que o havia precedido, denominado de soberania. O regime de soberania consistia em fazer morrer e deixar viver. Cabia ao soberano a prerrogativa de matar, de maneira espetacular, os que ameaçassem seu poderio, e deixar viverem os demais. Já no contexto biopolítico, surge uma nova preocupação. Não cabe ao poder fazer morrer, mas sobretudo fazer viver, isto é, cuidar da população, da espécie, dos processos biológicos, otimizar a vida. Gerir a vida, mais do que exigir a morte.
Assim, se antes o poder consistia num mecanismo de subtração ou extorsão, seja da riqueza, do trabalho, do corpo, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida5, o biopoder passa agora a funcionar na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando a otimização das forças vitais que ele submete. Ao invés de fazer morrer e deixar viver, trata-se de fazer viver, e deixar morrer. O poder investe a vida, não mais a morte, daí o desinvestimento da morte, que passa a ser anônima, insignificante. Claro que o nazismo consiste num cruzamento extremo entre a soberania e o biopoder, ao fazer viver (a "raça ariana") e fazer morrer (as raças ditas "inferiores"), um em nome do outro.
O biopoder contemporâneo, segundo Agamben - e nisso ele parece seguir, mas também "atualizar" Foucault- já não se incumbe de fazer viver, nem de fazer morrer, mas de fazer sobreviver. Ele cria sobreviventes. E produz a sobrevida. No contínuo biológico, ele busca até isolar um último substrato de sobrevida. Como diz Agamben: "Pois não é mais a vida, não é mais a morte, é a produção de uma sobrevida modulável e virtualmente infinita que constitui a prestação decisiva do biopoder de nosso tempo. Trata-se, no homem, de separar a cada vez a vida orgânica da vida animal, o não-humano do humano, o muçulmano da testemunha, a vida vegetativa, prolongada pelas técnicas de reanimação, da vida consciente, até um ponto limite que, como as fronteiras geopolíticas, permanece essencialmente móvel, recua segundo o progresso das tecnologias científicas ou políticas. A ambição suprema do biopoder é realizar no corpo humano a separação absoluta do vivente e do falante, de zoè e biós, do não-homem e do homem: a sobrevida"6.
Fiquemos pois, por ora, nesse postulado inusitado que Agamben encontra no biopoder contemporâneo: fazer sobreviver, produzir um estado de sobrevida biológica, reduzir o homem a essa dimensão residual, não humana, vida vegetativa, que o chamado "muçulmano" dos campos de concentração, por um lado, e o neomorto das salas de terapia intensiva, por outro, encarnam.
A sobrevida é a vida humana reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, à vida nua. Mas engana-se quem vê vida nua apenas na figura extrema do "muçulmano", sem perceber o mais assustador: que de certa maneira somos todos "muçulmanos". Até Bruno Bettelheim, sobrevivente de Dachau e Buchenwald, quando descreve o comandante do campo, qualifica-o como uma espécie de "muçulmano", "bem alimentado e bem vestido". Ou seja, o carrasco é ele também, igualmente, um cadáver vivo, habitando essa zona intermediária entre o humano e o inumano, máquina biológica desprovida de sensibilidade e excitabilidade nervosa. A condição de sobrevivente, de "muçulmano", é um efeito generalizado do biopoder contemporâneo, ele não se restringe aos regimes totalitários, e inclui plenamente a democracia ocidental, a sociedade de consumo, o hedonismo de massa, a medicalização da existência, em suma, a abordagem biológica da vida numa escala ampliada.

O corpo

Tomemos a título de exemplo o superinvestimento do corpo que caracteriza nossa atualidade. Desde algumas décadas, o foco do sujeito deslocou-se da intimidade psíquica para o próprio corpo. Hoje, o eu é o corpo. A subjetividade foi reduzida ao corpo, a sua aparência, a sua imagem, a sua performance, a sua saúde, a sua longevidade. O predomínio da dimensão corporal na constituição identitária permite falar numa "bioidentidade". É verdade que já não estamos diante de um corpo docilizado pelas instituições disciplinares, como há cem anos atrás, corpo estriado pela máquina panóptica, o corpo da fábrica, o corpo do exército, o corpo da escola. Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese, científica e estética a um só tempo. É o que Francisco Ortega chama de bioascese7. Por um lado, trata-se de adequar o corpo às normas científicas da saúde, longevidade, equilíbrio, por outro, trata-se de adequar o corpo às normas da cultura do espetáculo, conforme o modelo das celebridades.
Como o diz Jurandir Freire Costa, a obsessão pela perfectibilidade física, com as infinitas possibilidades de transformação anunciadas pelas próteses genéticas, químicas, eletrônicas ou mecânicas, essa compulsão do eu para causar o desejo do outro por si, mediante a idealização da imagem corporal, mesmo às custas do bem-estar, com as mutilações que o comprometem, substituem finalmente a satisfação erótica que prometem pela mortificação auto-imposta8. O fato é que abraçamos voluntariamente a tirania da corporeidade perfeita, em nome de um gozo sensorial cuja imediaticidade torna ainda mais surpreendente o seu custo em sofrimento.
A bioascese é um cuidado de si, mas, à diferença dos antigos, cujo cuidado de si visava a bela vida, e que Foucault chamou de estética da existência, o nosso cuidado visa o próprio corpo, sua longevidade, saúde, beleza, boa forma, felicidade científica e estética, ou o que Deleuze chamaria a "gorda saúde dominante". Não hesitamos em qualificá-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista -diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana. Que, ademais, o corpo tenha se tornado também um pacote de informações9, um reservatório genético, um dividual estatístico, com o qual somos lançados ao domínio da biossociabilidade ("faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos" etc.), isto só vem fortalecer os riscos da eugenia. Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada… Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no âmbito da sobrevida, da produção maciça de "sobreviventes", no sentido amplo do termo.

Sobrevivencialismo

Que me seja permitido alargar a noção de sobrevivente mencionada acima. Na sua análise do 11 de Setembro, Slavoj Zizek contestou o adjetivo de covardes imputado aos terroristas que perpetraram o atentado contra as torres gêmeas. Afinal, eles não têm medo da morte, contrariamente aos ocidentais, que não só prezam a vida, conforme se alega, mas querem preservá-la a todo custo, prolongá-la ao máximo. Somos escravos, isto é, somos escravos da sobrevivência, até num sentido hegeliano. Nossa cultura visa sobretudo a sobrevivência, pouco importa a que custo: sobrevivencialismo. Somos os últimos homens de Nietzsche, que não querem perecer, que prolongam sua agonia, "imersos na estupidez dos prazeres diários" - é o Homo Otarius.
A pergunta de Zizek é a de São Paulo: "Quem está realmente vivo hoje? E se somente estivermos realmente vivos, se nos comprometermos com uma intensidade excessiva que nos coloca além da "vida nua"? E se, ao nos concentrarmos na simples sobrevivência, mesmo quando é qualificada como "uma boa vida", o que realmente perdemos na vida for a própria vida? E se o terrorista suicida palestino a ponto de explodir a si mesmo e aos outros estiver, num sentido enfático, "mais vivo"?1 E o autor pergunta: "Não vale mais um histérico verdadeiramente vivo no questionamento permanente da própria existência que um obsessivo que evita acima de tudo que algo aconteça, que escolhe a morte em vida?".
Não se trata, obviamente, de nenhuma conclamação ao terrorismo, mas de uma crítica cáustica ao que o filósofo esloveno chama de postura sobrevivencialista "pós-metafísica" dos Últimos Homens, e ao espetáculo anêmico da vida se arrastando como uma sombra de si mesma, nesse contexto biopolítico em que se almeja uma existência asséptica, indolor, prolongada ao máximo, onde até os prazeres são controlados e artificializados: café sem cafeína, cerveja sem álcool, sexo sem sexo, guerra sem baixas, política sem política -a realidade virtualizada.
Para o filósofo, morte e vida designam não fatos objetivos, mas posições existenciais subjetivas, e, nesse sentido, ele brinca com a idéia provocativa de que haveria mais vida do lado daqueles que de maneira frontal, numa explosão de gozo, reintroduziram a dimensão de absoluta negatividade em nossa vida diária com o 11 de Setembro, do que nos Últimos Homens, todos nós, que arrastam sua sombra de vida como mortos-vivos, zumbis pós-modernos.
O autor chama a atenção para a paisagem de desolação contra a qual vem inscrever-se um tal ato, e sobretudo para o desafio de se repensar hoje o próprio estatuto do ato, do acontecimento, em suma, da gestualidade política, num momento em que a vitalidade parece ter migrado para o lado daqueles que, numa volúpia de morte, souberam desafiar nosso sobrevivencialismo exangue. Seja como for, poderíamos dizer que na pós-política espetacularizada, e com o respectivo seqüestro da vitalidade social, estamos todos reduzidos ao sobrevivencialismo biológico, à mercê da gestão biopolítica, cultuando formas de vida de baixa intensidade, submetidos à morna hipnose consumista, mesmo quando a anestesia sensorial é travestida de hiperexcitação. É a existência de ciberzumbis, pastando mansamente entre serviços e mercadorias, e como dizia Gilles Châtelet, viver e pensar como porcos2. Vida besta é esse rebaixamento global da existência, essa depreciação da vida, sua redução à vida nua, à sobrevida, estágio último do niilismo contemporâneo.
À vida sem forma do homem comum, nas condições do niilismo, a revista “Tiqqun” deu o nome de “Bloom”3. Inspirado no personagem de Joyce, “Bloom” seria um tipo humano recentemente aparecido no planeta, e que designa essas existências brancas, presenças indiferentes, sem espessura, o homem ordinário, anônimo, talvez agitado quando tem a ilusão de que com isso pode encobrir o tédio, a solidão, a separação, a incompletude, a contingência -o nada.
Bloom designa essa tonalidade afetiva que caracteriza nossa época de decomposição niilista, o momento em que vem à tona, porque se realiza em estado puro, o fato metafísico de nossa estranheza e inoperância, para além ou aquém de todos os problemas sociais de miséria, precariedade, desemprego etc. Bloom é a figura que representa a morte do sujeito e de seu mundo, onde tudo flutua na indiferença sem qualidades, em que ninguém mais se reconhece na trivialidade do mundo de mercadorias infinitamente intercambiáveis e substituíveis. Pouco importam os conteúdos de vida que se alternam e que cada um visita em seu turismo existencial, o “Bloom” é já incapaz de alegria assim como de sofrimento, analfabeto das emoções de que recolhe ecos difratados.
Quando a vida é reduzida à vida besta em escala planetária, quando o niilismo se dá a ver de maneira tão gritante em nossa própria lassidão, nesse estado hipnótico consumista do “Bloom” ou do “Homo Otarius”, cabe perguntar o que poderia ainda sacudir-nos de tal estado de letargia, e se a catástrofe não estaria aí instalada cotidianamente ("o mais sinistro dos hóspedes", como dizia Nietzsche a respeito do niilismo), ao invés de ser ela apenas a irrupção súbita de um ato espetacular.

O corpo que não agüenta mais

O que poderia ainda nos sacudir de tal estado de letargia, lassidão, esgotamento? Há uma bela definição beckettiana sobre o corpo, dada por David Lapoujade. “Somos como personagens de Beckett, para os quais já é difícil andar de bicicleta, depois, difícil de andar, depois, difícil de simplesmente se arrastar, e, depois ainda, de permancer sentado... Mesmo nas situações cada vez mais elementares, que exigem cada vez menos esforço, o corpo não agüenta mais. Tudo se passa como se ele não pudesse mais agir, não pudesse mais responder. O corpo é aquele que não agüenta mais”4, até por definição. Mas, pergunta o autor, o que é que o corpo não aguenta mais? Ele não agüenta mais tudo aquilo que o coage, por fora e por dentro.
Por exemplo, o adestramento civilizatório que por milênios se abateu sobre ele, como Nietzsche o mostrou exemplarmente em “Para a Genealogia da Moral”, ou mais recentemente Norbert Elias, ao descrever de que modo o que chamamos de civilização é resultado de um progressivo silenciamento do corpo, de seus ruídos, impulsos, movimentos5... Mas, também, a docilização que lhe foi imposta pelas disciplinas, nas fábricas, nas escolas, no exército, nas prisões, nos hospitais, pela máquina panóptica...
Tendo em vista o que foi mencionado acima, deveríamos acrescentar essa terceira "camada": o que o corpo não agüenta mais é a mutilação biopolítica, a intervenção biotecnológica, a modulação estética, a digitalização bioinformática, o entorpecimento sensorial. Em suma, e num sentido muito amplo, o que o corpo não agüenta mais é a mortificação sobrevivencialista, seja no estado de exceção, seja na banalidade cotidiana. O "muçulmano", o "ciberzumbi", o "corpo-espetáculo", "a gorda saúde dominante", o "Bloom", por extremas que pareçam suas diferenças, ressoam no efeito anestésico e narcótico, configurando a impermeabilidade de um corpo "blindado"6 em condições de niilismo terminal.
Diante disso, seria preciso retomar o corpo naquilo que lhe é mais próprio, sua dor no encontro com a exterioridade, sua condição de corpo afetado pelas forças do mundo e capaz de ser afetado por elas: sua afectibilidade. Como o observa Barbara Stiegler, para Nietzsche todo sujeito vivo é primeiramente um sujeito afetado, um corpo que sofre de suas afecções, de seus encontros, da alteridade que o atinge, da multidão de estímulos e excitações que lhe cabe selecionar, evitar, escolher, acolher7. Nessa linha, também Deleuze insiste: um corpo não cessa de ser submetido aos encontros, com a luz, o oxigênio, os alimentos, os sons e as palavras cortantes - um corpo é primeiramente encontro com outros corpos, poder de ser afetado. Mas não por tudo e nem de qualquer maneira, como quem deglute e vomita tudo, com seu estômago fenomenal, na pura indiferença daquele a quem nada abala...
Como então preservar a capacidade de ser afetado, senão através de uma permeabilidade, uma passividade, até mesmo uma fraqueza? Mas como ter a força de estar à altura de sua fraqueza, ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força, pergunta Nietzsche e, no seu rastro, Stiegler, Lapoujade? Gombrowicz referia-se a um inacabamento próprio à vida, ali onde ela se encontra em estado mais embrionário, onde a forma ainda não “pegou” inteiramente8, e a atração irresistível que exerce esse estado de Imaturidade, onde está preservada a liberdade de “seres ainda por nascer”... Porém, será possível dar espaço a tais "seres ainda por nascer" num corpo excessivamente musculoso, em meio a uma atlética auto-suficiência, demasiadamente excitada, plugada, obscena, perfectível? Talvez por isso tantos personagens literários, de Bartleby ao artista da fome, precisem de sua imobilidade, esvaziamento, palidez, no limite do corpo morto. Para dar passagem a outras forças que um corpo excessivamente blindado não permitiria. Mas será preciso produzir um corpo morto para que outras forças atravessem o corpo?
José Gil observou o processo através do qual, na dança contemporânea, o corpo se assume como um feixe de forças e desinveste os seus órgãos, desembaraçando-se dos “modelos sensório-motores interiorizados”, como o diz Cunningham. Um corpo “que pode ser desertado, esvaziado, roubado da sua alma”, para então poder “ser atravessado pelos fluxos mais exuberantes da vida”. É aí, diz Gil, que esse corpo, que já é um corpo-sem-órgãos, constitui ao seu redor um domínio intensivo, uma nuvem virtual, uma espécie de atmosfera afetiva, com sua densidade, textura, viscosidade próprias, como se o corpo exalasse e liberasse forças inconscientes que circulam à flor da pele, projetando em torno de si uma espécie de “sombra branca”9. Não posso me furtar à tentação, nem que seja de apenas mencionar, a experiência da Cia. Teatral Ueinzz, que coordeno em São Paulo, na qual reencontramos entre alguns dos atores ditos psicóticos, posturas “extraviadas”, inumanas, disformes, rodeados de sua “sombra branca”, ou imersos numa “zona de opacidade ofensiva”10. O corpo aparece aí como sinônimo de uma certa impotência, mas é dessa impotência que ele extrai uma potência superior, nem que seja às custas do corpo empírico.
Pois é às custas do corpo empírico que um corpo virtual pode vir à tona. Desde o jejuador até o homem-inseto, os personagens de Kafka reivindicam um corpo “afetivo, intensivo, anarquista, que só comporta pólos, zonas, limiares e gradientes”. Como dizem Deleuze-Guattari, num tal corpo se desfazem e se embaralham as hierarquias, “preservando-se apenas as intensidades que compõem zonas incertas e as percorrem a toda velocidade, onde enfrentam poderes, sobre esse corpo anarquista devolvido a si mesmo”11, ainda que ele seja o de um coleóptero. “Criar para si um corpo sem órgãos, encontrar seu corpo sem órgãos é a maneira de escapar ao juízo” do pai, do patrão, de Deus, é uma maneira de fugir a todo um sistema do juízo, da punição, da culpa, da dívida.
Ao invés da dívida infinita em relação à instância transcendente, o embate dos corpos, num sistema da crueldade imanente. Há aí, insistem os autores, nesse corpo desfeito e intensivo, tal como aparece em Kafka, uma vitalidade não-orgânica, inumana, e um combate: “Todos os gestos são defesas ou mesmo ataques, esquivas, paradas, antecipações de um golpe que nem sempre se vê chegar, ou de um inimigo que nem sempre se consegue identificar: donde a importância das posturas do corpo”12. Mas o objetivo do combate, diferentemente da guerra, não consiste em destruir o Outro, mas em escapar-lhe ou apossar-se de sua força. Em suma, o combate como uma “poderosa vitalidade não-orgânica, que completa a força com a força, e enriquece aquilo de que se apossa”.
Mas o que é essa vitalidade não-orgânica? Em “Imanência: Uma Vida”, último texto escrito por Deleuze, comparece um exemplo - o de Dickens. O canalha Riderhood está prestes a morrer num quase afogamento, e libera nesse ponto uma “centelha de vida dentro dele” que parece poder ser separada do canalha que ele é, centelha com a qual todos à sua volta se compadecem, por mais que o odeiem -eis aí uma vida, puro acontecimento, em suspensão, impessoal, singular, neutro, para além do bem e do mal, uma “espécie de beatitude”, diz Deleuze13.

1 - S. Zizek, “Bem-vindo ao Deserto do Real”, São Paulo, Boitempo, 2003, p. 108.
2 - G. Châtelet, "Vivre et Penser Comme des Porcs", Paris, Exils, 1998.
3 - Tiqqun, "Théorie du Bloom", Paris, La Fabrique, 2000, e a revista « Tiqqun », 2001.
4 - David Lapoujade, “O Corpo Que Não Agüenta Mais”, in “Nietzsche e Deleuze - Que Pode o Corpo”, org. D. Lins, Relume Dumará, Rio de Janeiro, 2002, p 82 e seguintes.
5 - Norbert Elias, “O Processo Civilizador”, vol I, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed, 1994.
6 - Juliano Pessanha, “Certeza do Agora”, São Paulo, Ateliê Ed. 2002.
7 - Barbara Stiegler, "Nietzsche et la Biologie", Paris, PUF, 2001, p. 38.
8 - Witold Gombrowicz, "Contre les Poètes", Paris, Ed. Complexe, 1988, p. 129.
9 - José Gil, “Movimento Total”, Lisboa, Relógio d´Água, 2001, p. 153.
10 - http://ueinzz.sites.uol.com.br/home.htm
11 - G. Deleuze, “Crítica e Clínica”, São Paulo, Ed. 34, p. 149.
12 - G. Deleuze, “Crítica e Clínica”, op. cit., p. 149-150.
13 - G. Deleuze, "L´Immanence, Une Vie", in « Deux Régimes de Fous », Paris, Minuit, 2003.
Peter Pál Pelbart