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domingo, 15 de agosto de 2010

Psicofarmacologia na Prática Clínica

Realização: Mental Help - Serviços em Saúde Mental

Professor: Dr. José Sardella (Psiquiatra)

Módulo I: Antidepressivos
Data: 23/10

Módulo II: Estabilizadores de Humor
Data: 06/11

Módulo III: Antipsicóticos
Data: 20/11

Módulo IV: Benzodiazepínicos
Data: 04/12

Carga Horária: 4h/módulo
Horário: 8h às 12h
Local: a ser definido

Investimento por módulo:
Profissionais: 150,00
Estudantes de Graduação: 100,00

Os interessados poderão optar pelo número de módulos que quiserem. Aqueles que optarem por mais de um módulo poderão fazer o pagamento total em uma única vez, ou a cada módulo. O pagamento do primeiro módulo deverá ser efetuado até o dia 15/10. Será fornecido certificado.

Forma de Pagamento:
Por meio de depósito bancário para Sardella Consultoria em Saúde Mental Ltda ou cheque
CNPJ: 09076681/0001-46
Banco Real
Ag: 1747
Conta: 2002764-1

O comprovante de depósito deverá ser entregue no ato da inscrição. Para aqueles que residem fora de Uberlândia, o comprovante poderá ser entregue no início do curso, desde que já tenham informado anteriormente a data do depósito.

Os interessados que residem fora de Uberlândia poderão fazer a sua inscrição enviando os seguintes dados para sadairel@gmail.com:
Nome
Profissão/Estudante
Instituição
Endereço Completo
Telefone
e-mail

Os residentes em Uberlândia deverão realizar a sua inscrição, na Rua Alexandre Marquez, 463 - Martins - Uberlândia (Clínica de Psiquiatria e Psicologia).

Será confeccionado folder de divulgação com ficha de inscrição anexa, onde os dados do inscrito serão registrados oficialmente.

A inscrição somente será considerada mediante a comprovação do depósito realizado.

Telefones para mais informações: 32372525 (Ana Lúcia) - 96679676 e 96881221 (Samara).
www.mentalhelp.srv.br (em construção)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Chega de Angústia, Chegou a Depressão!

Nestas duas últimas décadas, sobretudo nos anos 90, aconteceu uma mudança radical. Mudou a tonalidade dominante das queixas e do sofrimento psíquico. Nosso mal-estar passou a se expressar de maneira nova, trocou de dialeto, de aparência e de cheiro: somos cada vez menos angustiados e cada vez mais deprimidos.

A angústia foi boa companheira da modernidade durante quase dois séculos: do romantismo ao existencialismo, ela se encarregou de representar o mal-estar de nossa cultura.

Além do gosto acre de suor frio, além da sensação de vazio interno, de suspensão sem fôlego, além do sofrimento ser angustiado foi, nessa época toda, um chique literário e filosófico. Ou melhor, uma espécie de marca retórica que confirmava a seriedade das apostas e do envolvimento com a verdade. Você quer ser levado a sério? Mostre-me suas angústias! Elas não mentem.

Hoje, o mesmo passou a valer para a depressão. Além do bafo de dentes não escovados e do relento da cama desfeita, a depressão também é um chique. Desde ‘Darkness Visible’ de William Styron (em 1990), se multiplicam os relatos de catástrofes depressivas e lutas heróicas. Em dez anos, já são centenas, uma espécie de gênero literário autônomo.

Essa constatação cultural e clínica é corroborada pela inquietação dos organismos internacionais que monitoram nossa saúde. A depressão é hoje nos países ocidentais, o inimigo número 2: a condição mais invalidante depois das doenças cardíacas. É um fato no mínimo curioso para um sintoma que, até 15 anos atrás, mal era reconhecido em sua autonomia.

O que aconteceu? Uma epidemia? Algum novo vírus? Sem dúvida, a indústria farmacêutica sabe promover as doenças para as quais ela tem um remédio com boa perspectiva comercial. Ou seja, ela encontra um remédio, em seguida nomeia a doença curada por ele, a faz existir culturalmente e, portanto, nos sugere (ou impõe) sofrer segundo sua forma. O que garante que a gente recorra ao remédio que está na origem da empreitada. De fato, os antidepressivos comercializados no fim dos anos 80 inauguraram o sucesso da depressão. Foi com a descoberta do Prozac que a depressão passou a existir como fenômeno cultural e se constituiu como uma entidade nosográfica popular.

Nessa direção, vale a pena ler o livro de David Healy, “The Antidepressant Era” (Harvard 1998). Healy argumenta que a idéia da depressão como patologia específica foi um achado dos laboratórios à caça de clientes para sua nova invenção: os remédios que aumentam a serotonina (Prozac, Paxil, Zoloft etc.). De fato, nos últimos anos, várias pesquisas vêm mostrando que o déficit de serotonina talvez não seja a razão biológica única, ou mesmo decisiva da depressão, e sugerem uma visão mais complexa tanto das depressões quanto de sua abordagem terapêutica.

Nesse clima, seria tentador considerar que o sucesso cultural da depressão seja só um efeito da invenção dos antidepressivos. Mas a idéia não alcança.

Seria impossível afirmar, por exemplo, que o sucesso da angústia foi produzido pela invenção dos ansiolíticos: a angústia começou bem antes. Em outras palavras, as formas de nosso mal-estar não dependem só das sugestões farmacêuticas.

Resta que, neste fim de século, com a ajuda dos laboratórios, a depressão ganhou da angústia. Hoje parece mais interessante (e mais bem recebido socialmente) ser deprimido do que angustiado. A depressão parece mais verdadeira, como se ela manifestasse o que somos, melhor do que a angústia.

Por que? Posso propor uma hipótese: a angústia foi a primeira forma do mal-estar moderno, a expressão do drama de gerações que renunciaram ao mundo ordenado por tradições e hierarquias e tentaram caminhar por conta própria. Ela é a companheira das grandes expectativas, dos futuros incertos, sonhados e receados. Ela é, em suma, o mal-estar do liberto: e agora? O que fazer? Aonde ir?

Ora, contemporânea à chegada do Prozac e da depressão, surgiu (e vem ganhando terreno) a idéia de que a história acabou: basta de expectativas e sonhos incautos. Nem tudo é perfeito, mas alcançamos a época dos ajustes finais. Não cabe mais projetar grandes mudanças e sofrer entre anseios e ansiedades, se perguntando como as coisas do mundo vão ficar. O mundo está mais ou menos resolvido. Está na hora de se ocupar da gente, de sorrir, ou fazer caretas no espelho, até ficarmos convencidos de que somos felizes e bonitos.

Com isso, ficamos, sobretudo, deprimidos, pois qualquer furúnculo na ponta do nariz afeta o que mais nos importa: a nossa própria imagem. É uma razão para não sair de casa, ficar na cama, deixar de ser e de fazer, contemplando no espelho o retrato de nossa inadequação.

O anseio de futuros gloriosos, em suma, está sendo substituído por uma inconsolável e preguiçosa tristeza: o furúnculo especular nos imobiliza e, assim como a consciência para Hamlet, nos torna, eventualmente, todos covardes.

Trocam-se, por assim dizer, aspirações e ideais, por um bom creme antiacne.
Contardo Calligaris
Folha de São Paulo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Uso de Antidepressivos por Nutrizes Pode Atrasar a Produção de Leite Materno

Mulheres que tomam uma das classes mais vendidas de antidepressivos podem apresentar atraso na produção de leite materno depois do parto e precisar de suporte adicional para atingir as suas metas de aleitamento. É o que diz estudo aceito para publicação na revista "The Endocrine Societys Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism (JCEM)".

A amamentação beneficia os bebês e as mães em diversos aspectos. Como o leite materno é de fácil digestão e contém anticorpos que protegem contra infecções bacterianas e virais, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as crianças sejam amamentadas exclusivamente pelo menos nos seis primeiros meses de vida e que continuem sendo amamentados até 2 anos ou mais. E os autores da pesquisa alertam que o consumo de alguns medicamentos antidepressivos pode estar ligado a uma dificuldade conhecida como "atraso da ativação secretora".

A capacidade de os seios secretarem o leite na hora certa está intimamente relacionada com a produção e regulação do hormônio serotonina - diz Nelson Horseman, da Universidade de Cincinnati e principal autor do estudo. - Drogas comuns como fluoxetina, sertralina e paroxetina, chamados de inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS) podem afetar o humor, a emoção e o sono; e elas também podem ter impacto na regulação da serotonina na amamentação. Isto aumenta o risco de atraso na lactação, na oferta de leite materno de forma exclusiva.

No estudo, os cientistas examinaram os efeitos das drogas ISRS na lactação a partir de estudos de laboratório de linhagens de células humanas, de animais e ratos geneticamente modificados. Além disso, uma análise de observação avaliou o impacto das drogas ISRS sobre o início da produção de leite em depois do parto. Os autores acompanharam 431 mulheres e o início médio da lactação pós-parto foi de 85,8 no grupo que tomava antidepressivos e 69,1 horas nas mães não tratadas com as drogas. Os pesquisadores geralmente definem o atraso na ativação secretora quando ele ocorre mais de 72 horas depois do parto.

Essas drogas são úteis para muitas mães. Precisamos de mais pesquisas com humanos antes de fazer recomendações específicas sobre o uso de antidepressivos ISRS durante a amamentação - diz Horseman.




Autor: O Globo online - Prof. Marcus Renato de Carvalho
Data: 8/2/2010
www.aleitamento.com

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Depressão será a doença mais comum do mundo em 2030, diz OMS

Dados divulgados nesta quarta-feira pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, nos próximos 20 anos, a depressão deve se tornar a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, incluindo câncer e doenças cardíacas. Segundo a OMS, a depressão será também a doença que mais gerará custos econômicos e sociais para os governos, por causa dos gastos com tratamento para a população e das perdas de produção. De acordo com o órgão, os países pobres são os que mais devem sofrer com o problema, já que são registrados mais casos de depressão nesses lugares do que em países desenvolvidos. Atualmente, mais de 450 milhões de pessoas são afetadas diretamente por transtornos mentais, a maioria delas nos países em desenvolvimento, segundo a OMS. As informações foram divulgadas durante a primeira Cúpula Global de Saúde Mental, realizada em Atenas, na Grécia. "Os números da OMS mostram claramente que o peso da depressão vai provavelmente aumentar, de modo que, em 2030, ela será sozinha a maior causa de perdas entre todos os problemas de saúde", afirmou o médico Shekhar Saxena, do Departamento de Saúde Mental da OMS. Ainda segundo Saxena, a depressão é mais comum do que outras doenças que são mais temidas pela população, como a Aids ou o câncer. "Nós poderíamos chamar isso de uma epidemia silenciosa, porque a depressão está sendo cada vez mais diagnosticada, está em toda parte e deve aumentar em termos de proporção, enquanto a ocorrência de outras doenças está diminuindo."

Pobres

Segundo o médico, os custos da depressão serão sentidos de maneira mais aguda nos países em desenvolvimento, já que eles registram mais casos da doença e têm menos recursos para tratar de transtornos mentais. "Nós temos dados que apontam que os países mais pobres têm mais casos de depressão do que os países ricos. Além disso, até mesmo as pessoas pobres que vivem em países ricos têm maior incidência de depressão do que as pessoas ricas destes mesmos países", afirma Saxena. "A depressão tem diversas causas, algumas delas biológicas, mas parte dessas causas vem de pressões ambientais e, obviamente, as pessoas pobres sofrem mais estresse em seu dia a dia do que as pessoas ricas, e não é surpreendente que elas tenham mais depressão." Segundo o médico, o aumento nos casos de depressão e os custos econômicos e sociais da doença tornam mais urgente uma mudança de atitude em relação ao problema. "A depressão é uma doença como qualquer outra doença física, e as pessoas têm o direito de ser aconselhadas e receber o mesmo cuidado médico que é dado no caso de qualquer outra doença."

http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1289791-5603,00-DEPRESSAO+SERA+A+DOENCA+MAIS+COMUM+DO+MUNDO+EM+DIZ+OMS.html

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Associações Letais

Pergunta
Gostaria de saber qual a justificativa do uso concomitante de sibutramina + paroxetina, fluoxetina ou sertralina, na mesma cápsula, com indicação para depressão e emagrecimento.
Resposta
A sibutramina é um antidepressivo e inibidor do apetite, que age por inibição da recaptação de noradrenalina, dopamina e serotonina. Os metabólitos da sibutramina, M1 e M2, também inibem a recaptação destes neurotransmissores.1,2
Os fármacos fluoxetina, paroxetina e sertralina são inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS).1,2 A administração concomitante de sibutramina com um agente serotoninérgico, como os ISRS, promove efeito farmacológico aditivo, resultando em estímulo serotoninérgico excessivo, conhecido como síndrome serotoninérgica.1,2,3
A síndrome serotoninérgica manifestasecom cansaço, mioclonia, confusão mental, hiper-reflexia, sudorese profusa, tremor, inquietação, calafrio, incoordenação e hipertermia.
Se a síndrome não for reconhecida e tratada adequadamente, pode ser fatal.1,2,3
A sibutramina não deve, portanto, ser associada a agentes serotoninérgicos devido ao aumento de riscos ao paciente.
Referências
1. Sibutramine. In: Hutchison TA & Shahan DR (Eds): DRUGDEX® System. MICROMEDEX, Inc., Greenwood Village. Vol 124; 2005.
2. Sibutramine. In: Sweetman S (Ed), Martindale: The Complete Drug Reference. London: Pharmaceutical Press. Electronic version, MICROMEDEX, Greenwood Village, Colorado. Vol. 124; 2005.
3. Fuchs FD, Wannmacher L, Ferreira MBC (Eds). Farmacologia clínica: fundamentos da terapêutica racional. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004.

Pharmacia Brasileira - Março/Abril 2005
Conselho Federal de Farmácia

terça-feira, 14 de abril de 2009

"Antidepressivos, Graças a Deus"

“Muito prazer, sou uma F34.1”. Assim a jornalista Catia Moraes, autora de Eu tomo antidepressivo, graças a Deus! (Record) manifestou o alívio que sentiu ao encontrar, na lista de sintomas elaborada pela CID-10, (Classificação Internacional de Doenças da OMS) a descrição dos transtornos de humor que “explicavam” sua depressão. A frase não é tão irônica quanto parece. A depressão, que muitos analistas e sociólogos consideram o sintoma mais expressivo das contradições sociais do século XXI, tornou-se, com o aval da ciência, uma prótese de identidade para os sujeitos perdidos entre as referências voláteis do mundo contemporâneo. Por isso mesmo, é uma doença com enorme potencial de mercado. Se os deprimidos incomodam por sua inapetência para a grande festa do consumo que anima a vida social no mundo industrializado, seu apetite por novas medicações vem alavancando as vendas da indústria farmacêutica, que crescem cerca de 22% ao ano no país e movimentam anualmente 320 milhões de dólares . Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere ao enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice deste encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para a diversão. Observa-se um estranho conluio entre a medicina e a doença: a auto-identificação do deprimido responde às novas estratégias de vendas dos laboratórios farmacêuticos. Folhetos explicativos, editados pelos laboratórios e pelo Ministério da Saúde, alertam para os perigos deste mal insidioso e orientam o leitor a detectar os primeiros sinais da doença, em listas de sintomas tão abrangentes que praticamente qualquer um pode se incluir nela. A propaganda estimula o auto-diagnóstico – a busca do medicamento é mera conseqüência. O livro de Cátia Moraes arremeda esta estratégia. Admito, de boa fé, que a autora não tenha escrito sob encomenda de nenhum fabricante de antidepressivos. Não faz diferença; o livro é uma peça publicitária. Escrito em estilo “pra cima”, recheado de expressões joviais que celebram as delícias da vida monitorada pelos antidepressivos, o livro alterna depoimentos triunfantes de consumidores de remédios com capítulos informativos ao modo dos panfletos dos laboratórios farmacêuticos. A começar pela superficialidade: cinco páginas explicam o que é a neurociência, dez páginas resumem o que são e como agem os antidepressivos, outras seis relatam os milagres da “eletroestimulação”, oito enumeram os “transtornos de humor ou afetivos” – as quais incluem praticamente todas as manifestações de dor psíquica – e por aí vai. O texto todo exala o entusiasmo dos convertidos. Os casos “clínicos” parecem inspirados nas antigas propagandas de fortificantes ou remédios para emagrecer, na base do “eu era assim/fiquei assim”. Como toda boa estratégia publicitária, a argumentação da autora não deixa de contemplar possíveis argumentos críticos. Noblesse oblige, a “psicoterapia” é recomendada como valor agregado ao tratamento medicamentoso, sem qualquer consideração efetiva que relacione a depressão com o conflito inconsciente e o desejo. Para que, afinal? O desenvolvimento de medicamentos cada vez mais especializados, ao reduzir o sujeito a uma somatória de transtornos de comportamento, não só dispensou a psicanálise como tem provocado uma falência teórica no seio da própria psiquiatria, que abandonou a produção de teorias sobre as doenças mentais.
Maria Rita Kehl é psicanalista, autora de, entre outros, O tempo e o Cão: A Atualidade das Depressões (Boitempo: no prelo).

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Depressão e o Tempo


O que a teoria freudiana sobre a melancolia pode ensinar ao psicanalista sobre a clínica das depressões? Muito pouco, quase nada. No entanto, nos debates de que tenho participado recentemente em torno desse tema, assim como em textos de diversos autores sobre o mesmo assunto, não é incomum encontrar certa confusão entre as características dos quadros depressivos e melancólicos, que chegam a ser abordados, indiscriminadamente, como se fossem a mesma coisa. Não são. As características “depressivas” do melancólico – negativismo, falta de ânimo, falta de auto-estima, fantasias auto-destrutivas, distúrbios somáticos e outras tantas manifestações de dor psíquica – podem se parecer, empiricamente, com as dos depressivos. Mas assim como algumas crises histéricas e algumas construções de pensamento delirantes entre os obsessivos podem ser confundidas com sintomas psicóticos, a semelhança fenomenológica entre a tristeza e o abatimento dos melancólicos e dos depressivos não são manifestações da mesma estrutura psíquica. Tal confusão talvez se deva ao fato de Freud, cujo texto “Luto e Melancolia” (1915) trouxe uma contribuição decisiva e inovadora para a compreensão da clínica da melancolia, não ter dedicado nenhum texto ao tema das depressões. Se as noções de depressão, estados depressivos, psicose maníaco-depressiva, ainda não terminaram de ser resgatadas do campo exclusivo da psiquiatria para o da clínica psicanalítica, o termo “melancolia” aportou em terras freudianas depois de percorrer a cultura ocidental, desde Aristóteles, carregada de signos de sensibilidade, originalidade, nobreza de espírito e outras qualidades que caracterizam o gênio criador. Tais qualidades da alma humana não se encontram entre as observações de Freud a respeito dos sintomas melancólicos. A teoria freudiana da melancolia promoveu duas rupturas simultâneas: no plano clínico, seu texto de 1915 trouxe a melancolia do campo da medicina psiquiátrica – em que era chamada de “psicose maníaco-depressiva” – para o da clínica psicanalítica. No outro plano, o da história das idéias, o texto de Freud acabou de afastar definitivamente a melancolia da longa tradição pré-moderna das representações, predominantemente sublimes, atribuídas aos homens de caráter melancólico, desde a antiguidade grega. A teoria freudiana sobre a melancolia ocupou um lugar tão importante no pensamento clínico do início do século XX que o conceito de depressão foi praticamente englobado pelo de melancolia, quando não confundido com ela. Nos últimos trinta anos, no entanto, o crescimento a níveis epidêmicos dos diagnósticos de depressão impõe aos psicanalistas uma separação teórica mais rigorosa entre esses dois campos clínicos. É preciso empreender novos esforços conceituais para pensar a especificidade da depressão de modo a impedir que esta forma de mal estar, agravada pelas condições da vida contemporânea, seja inteiramente apropriada pela medicina e pela psicofarmacologia. A teoria da melancolia é insuficiente para subsidiar a clínica das depressões, esta forma de mal estar que a indústria farmacêutica vem tentando circunscrever exclusivamente sob seus domínios, como se o deprimido sofresse apenas desarranjos e déficits químicos em um corpo sem sujeito. Do ponto de vista da psicanálise, a depressão resulta do empobrecimento da vida psíquica, sobretudo no que se refere ao enfrentamento de conflitos. O abuso de soluções medicamentosas acaba por ser cúmplice deste encolhimento subjetivo. Daí que o avanço mercadológico dos antidepressivos não corresponda a uma diminuição dos casos de depressão. Bem ao contrário: a supressão química do sujeito do inconsciente só faz aumentar o mal estar. A introspecção, a tristeza, o recolhimento, a contemplação – a vida do espírito, enfim – são desvios que atrapalham o rendimento de uma vida cuja qualidade se mede por critérios de eficiência, competência e disponibilidade para o consumo e a diversão...
O tempo do sujeito e o tempo do Outro
Desde 2005 venho investigando a questão das depressões do ponto de vista da relação dos sujeitos com a dimensão do tempo, ao qual ele é introduzido através das práticas do Outro materno. Meu interesse é investigar a relação dos depressivos com a delicada temporalidade psíquica, em contraste com a velocidade da vida social. Se a psiquiatria explica a lentidão depressiva como resultante de um déficit nos neurotransmissores, do ponto de vista da psicanálise ela resulta da posição do sujeito diante do Outro. Na origem da posição depressiva, encontramos um sujeito atropelado pela urgência do Outro. O psiquismo, em Freud, é uma instância temporal que se inaugura a partir da espera de satisfação. O tempo que se inaugura com a espera de satisfação da pulsão é a primeira dimensão da falta que se apresenta ao infans, a partir da qual ele haverá de dar início ao trabalho de representação do objeto faltante. O psiquismo nada mais é do que uma rede de representações tecida sobre um fundo vazio. A pressa do Outro materno, o excesso de solicitude e/ou de ansiedade de certas mães em atender rapidamente às menores manifestações de insatisfação do infans, intercepta a temporalidade psíquica, favorecendo a posição depressiva do sujeito no fantasma. A sociedade contemporânea vem produzindo – e sofrendo com isso – uma invasão de formas imaginárias deste Outro apressado, que não admite nenhum tempo ocioso que não seja rapidamente preenchido por ações que visam satisfação imediata. Em função disso, o recuo do depressivo ocupa o lugar do sintoma social. Ao deprimir-se, ele tenta fugir do excesso de ofertas – que do ponto de vista do sujeito em formação, são entendidas como demandas – do Outro, para se refugiar debaixo das cobertas. Este é o lugar que caracteriza o recuo do depressivo em relação à vida. Segundo alguns autores , o ninho que o depressivo faz para si mesmo debaixo das cobertas, onde o tempo não passa, funciona de maneira paradoxal. “Debaixo das cobertas” o depressivo encontra tanto um esconderijo quanto um lugar de gozo, de onde tenta, mas não consegue, se proteger contra a ameaça de ser engolido pelo Outro materno. Quanto mais o depressivo recua, mais se coloca à mercê da demanda da “bocarra de jacaré”, na dramática expressão utilizada por Lacan para se referir à mãe do infans. O tempo, como bem escreve François Julien, é “a última figura da transcendência no seio do pensamento ocidental ”. Esta última possibilidade de pensar e também de experimentar a transcendência, através da multiplicidade dos fenômenos temporais, vem se reduzindo drasticamente. O homem contemporâneo vive tão completamente imerso na temporalidade urgente dos relógios de máxima precisão, no tempo contado em décimos de segundo, que já não é possível conceber outra forma de estar no mundo que não sejam as da velocidade e da pressa. “Aproveitar bem o tempo” é um dos imperativos da vida contemporânea. Na prática, tal mandato corresponde a uma série de possibilidades que de fato se abriram para o desfrute da vida privada, nas sociedades liberais. O indivíduo, sob o capitalismo liberal, dispõe de uma enorme variedade de escolhas quanto ao desfrute de seu tempo livre, não mais regulado pelos ritos e proibições da vida religiosa, nem limitado pelas horas de luz do dia ou pelo maior ou menor rigor das estações. Por outro lado a marcação que caracteriza o tempo do trabalho (de forma desproporcional à oferta efetiva de oportunidades de trabalho) invade cada vez mais a experiência subjetiva da temporalidade, mesmo nas horas ditas de lazer. Não me refiro ao ócio, esta forma de passar o tempo tão desmoralizada em nossos dias, mas às atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que torna a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção. Nada causa tanto escândalo, em nosso tempo, quanto o tempo vazio. É preciso “aproveitar” o tempo, fazer render a vida, sem preguiça e sem descanso. A este imperativo, como veremos, o depressivo resiste com sua lentidão, seu mergulho angustiado e angustiante em um tempo estagnado – um “tempo que não passa ”. Se existe uma relação entre o estado subjetivo que os antigos chamavam de melancolia e a percepção do tempo – chamo a atenção para a freqüência com que encontramos ampulhetas entre os instrumentos que cercam as figuras dos melancólicos, a partir do Renascimento – esta relação se expressa de maneira dramática na lentidão dos depressivos contemporâneos, incapazes de atender à urgência das demandas do Outro. Tal lentidão, que se apresenta tanto aos olhos do sujeito deprimido quanto aos dos psiquiatras como mais uma entre as muitas disfunções características da depressão, talvez tenha algo a ensinar ao psicanalista. É razoável supor que a temporalidade moderna sacrifica o sujeito a seus imperativos; vale perguntar, então, de que ordem é a recusa que a depressão impõe a alguns sujeitos desviantes dessa norma contemporânea que insiste em anunciar: o futuro já começou. Não nos precipitemos. Ainda que, de acordo com Freud, a aniquilação seja o objeto definitivo do gozo da pulsão de morte, não devemos nos deixar fascinar, na clínica, pela negatividade dos depressivos. Se com sua recusa eles se aproximam perigosamente da verdade sobre o vazio Real que funda o psiquismo, o apego à negação dos depressivos deve ser entendido principalmente como o avesso de uma urgência. Sua lentidão encobre a inapetência característica daqueles que tiveram sua demanda antecipada pelo Outro e se vêem incapacitados para preencher este inquietante rodeio entre o nascimento e a morte, a que chamamos vida. Ao contrário do melancólico, abatido pela sombra de um objeto que não compareceu a tempo, os depressivos, preenchidos pela solicitude do Outro, foram poupados de inventar seus próprios jogos de fort-da – daí decorre o sentimento de vazio interior de que se queixam em análise. Instalados em um tempo que lhes parece vazio, sob sua aparente imobilidade, os depressivos estão mais próximos de encontrar a temporalidade distendida da contemplação e do devaneio do que os neuróticos mais bem adaptados às condições que a vida social lhes impõe. O tempo vazio do depressivo recusa a urgência da vida contemporânea e remete a um outro modo de viver o tempo, que a modernidade recalcou ou pelo menos, reprimiu. O psicanalista que escuta um depressivo deve ficar atento para a dimensão deste saber sobre o tempo que se encontra encoberto pela sua imobilidade angustiada. A indústria farmacêutica se empenha em oferecer ao depressivo substâncias capazes de levantar seu ânimo, colocá-lo em movimento, adaptá-lo ao tempo do Outro. A psicanálise, em contrapartida, lhe oferece a perspectiva de um percurso sem pressa, a partir do qual ele possa criar, ou redescobrir, suas próprias modalidades rítmicas de jogar com a falta, suas próprias brincadeiras de fort-da.

Depressão

O tempo que corre rápido e a idéia de que é preciso estar sempre alegre podem estar na origem de um dos grandes males do século XXI: a depressão. A partir de casos que chegaram ao seu consultório e de reflexões históricas, a psicanalista Maria Rita Kehl levantou a hipótese de que a depressão é, sim, um sintoma social.
"Os depressivos, além de se sentirem na contramão de seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social de sua tristeza".
Para Maria Rita Kehl, numa sociedade que “aposta na euforia como valor”, a tristeza e o desânimo tendem a ser vistos como patologia, como um comportamento a ser corrigido – de preferência, com remédios.
ENTREVISTA:
Você diz que a depressão, hoje, é semelhante ao que era a histeria no século XIX. Quer dizer que a tristeza é tão mal aceita hoje quanto era o comportamento feminino não recatado?
Quando falo de sintoma, não me refiro a dados estatísticos. Mas por que podemos pensar a histeria, no século XIX, como sintoma social?
Porque, nas regras de convívio e da moral desse período, o lugar da mulher estava claramente delimitado: a mulher que casa virgem, é fiel ao marido, cuida dos filhos, vive dentro de casa.
A histeria se torna sintoma social quando os médicos começam a receber, nos consultórios, mulheres que tinham convulsões, cegueiras e paralisias sem que nada fosse constatado no exame clínico.
Sempre houve e sempre haverá histéricas, mas, naquele momento, aquele comportamento enigmático causou um ruído por ser algo oposto à imagem da mulher serena, recatada, contida na sua expressão.
As histéricas rasgavam a fantasia e sinalizavam que havia alguma coisa errada.
E por que os deprimidos são o sintoma social deste início do século XXI?
Se você pensar nos parâmetros da sociedade contemporânea, é possível dizer que se trata de uma sociedade anti-depressiva.
É uma sociedade, aparentemente, com muita liberdade de escolha: como você quer viver, seu estilo de vida, como você vai se vestir, que tribo vai frequentar, o que vai comer, beber.
Há muita liberdade no plano superficial, no plano da festa. Existe muito apelo para a diversão.
Em contraste com o século XIX, em que o apelo era para contenção, sobriedade, repressão da sexualidade, hoje, a moral social é uma moral da diversão, não do sacrifício.
É uma moral que chama para aquilo que, na psicanálise, chamamos de gozo. É mais do que o prazer, é o excesso.
A rave não é, de alguma maneira, o símbolo disso tudo?
E para aguentar uma rave você é obrigado, inclusive, a tomar uma química. O apelo social não é para você aguentar o trabalho, mas a festa. Claro que a festa é ótima. Mas o que digo é que ela foi transformada no ideal social deste momento.
E o deprimido destoa radicalmente desse ideal.
Sim, porque esta é a única sociedade em que as pessoas ficam infelizes por se sentirem culpadas de não estarem tão felizes quando deveriam. Se alguém está triste, o que é natural na vida, essa cobrança social duplica a infelicidade.
O depressivo é sintoma social porque ele é aquele que não consegue aceitar o convite tão sedutor para estar sempre de bem com a vida. Mas esse é apenas um dos paradoxos. O outro diz respeito ao uso excessivo de medicação.
Seria o paradoxo do aumento do consumo de anti-depressivos e, ao mesmo tempo, do número de deprimidos?
A partir da década de 1980, a indústria farmacêutica começa a desenvolver anti-depressivos muito sofisticados. Era de se esperar que, com a oferta de soluções medicamentosas, o número de depressivos caísse. Em vez de cair, só aumenta.
Você pode até dizer que isso acontece porque, havendo remédio, mais gente procura os médicos. Mas isso não explica um salto de 50%.
Essa é uma das razões pelas quais esse tema começa a preocupar os psicanalistas. A psicanálise tem que começar a pensar na depressão, que passou muito tempo sendo tratada apenas por psiquiatras.
Do contrário, estaremos condenando essas pessoas que se dizem depressivas a só se tratar com remédios.
Mas o remédio, em muitos casos, é a única saída, não?
Claro, e não se trata de pôr um campo contra o outro. Muitos depressivos precisam de medicação até para conseguir sair da cama, pegar um ônibus e vir para a consulta.
Não é uma cruzada contra o anti-depressivo, mas contra a medicalização indiscriminada.
Por pressão dos laboratórios, os médicos começam a dar anti-depressivo para qualquer coisa: falta de apetite, stress, problemas no trabalho, mau humor.
Qual a conseqüência disso?
Muitas vezes eu recebo pacientes, aqui no consultório, ou numa escola do MST em que atendo pessoas de baixa renda, que já chegam se dizendo deprimidos. Esse é diagnóstico do século.
Aí você descobre que aquela pessoa não é deprimida, ela apenas não se recuperou de uma perda qualquer.
Há casos de gente que passa a vida tomando remédio sem precisar. E o anti-depressivo produz uma certa acomodação, um esvaziamento psíquico.
Psicanaliticamente, como pode ser definido um depressivo?
O depressivo recua para não ter de enfrentar conflito. E o conflito é o centro da vida psíquica. Não é que você tenha que viver em conflito, não saber o que quer, mas a vida psíquica exige constantes enfrentamentos entre o vetor do desejo e o do super-ego, que diz “isso não pode”.
O depressivo tende a recuar diante da necessidade de fazer escolhas e a não enfrentar os desafios da vida.
Você fala, no livro, que o depressivo tende a ser visto como “o portador de más notícias”. Voltando ao caráter social da depressão, o quanto essas característica são agravadas hoje?
O senso comum imagina que fulano não sai da cama porque está deprimido. Estou propondo inverter um pouco a lógica.
Fulano está deprimido porque não sai da cama, não sai do quarto, não sai de casa. Ou seja, primeiro o sujeito recua e, em consequência desse recuo, ele se deprime.
Qual o papel da tecnologia nisso tudo? Ela agrava o isolamento?
A tecnologia propicia muitas relações, mas sem a presença corporal. E a pulsão vital do homem só se mobiliza diante do outro corpo.
Se ficar apenas mandando mensagens ou e-mails, você pode ficar num estado de esfriamento. Não é falar mal da tecnologia, mas ela não pode substituir o presencial.
Mas o que mais chama a minha atenção é o ritmo veloz que a tecnologia imprime à vida, a velocidade com a qual ela te solicita. A internet, o celular, o trânsito te solicitam sem parar.
Quando você dirige um carro na marginal, você não pode parar de responder a estímulos externos.
A imagem do motorista na auto-pista é uma espécie de metáfora do sujeito contemporâneo.
Ele não pode ficar para trás, não pode diminuir a velocidade e tem de estar atento a todos perigos e solicitações, numa permanente rivalidade com o outro.
A falta de tempo pode levar à depressão?
O psiquismo tem toda uma delicadeza. O homem é capaz de suportar tudo, mas as adaptações têm um preço.
A adaptação à velocidade contemporânea, que atropela os processos psíquicos mais delicados, da memória, do devaneio, da fantasia, da chamada vida interior, pode ter como preço a depressão.
A velocidade cria um vazio, e não um preenchimento. Pense numa semana em que você correu muito. A gente olha e parece que não aconteceu nada, parece que só o tempo voou por cima da gente.
O que eu fiz do meu tempo? Nada, só respondi a estímulos, a demandas, e aí vem o sentimento de desvalorização da vida.
Que participação a mídia tem nisso?
A mídia e a publicidade são o arauto dessa ideologia. A publicidade tem de ser analisada. Que mensagem a publicidade vende? Seja um campeão, seja feliz, os outros que se danem. Como diz o (jornalista) Eugênio Bucci, a publicidade vende, sobretudo, a exclusão.
E como preservar nossa vida psíquica?
O Antonio Candido, na inauguração de uma biblioteca do MST, disse: tempo não é dinheiro, essa é uma barbaridade que o capitalismo nos impõe. O tempo é o tecido da vida.
Essa foi uma das sementes do livro. É uma brutalidade eu pensar que tenho de fazer, sempre, o meu tempo render dinheiro.
Vamos ver o que estamos fazendo com o tecido da vida, porque ele esgarça, ele rasga, perde a cor, fica fragilizado.