Uma contribuição para a construção do Serviço Público de Saúde Mental de Araxá, e para o exercício da cidadania e da sensibilidade.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
NOVAS INDIVIDUAÇÕES E UMA NOVA SAÚDE - Emerson Merhy
No mundo hoje, há mudanças de dispositivos subjetivos existenciais.Hoje não temos facilidade em dizer em qual momento a produção de capital explora e em qual a reprodução, força o trabalhador se recompor para ser explorado.
Estar implicado no modo de viver opera-se conecções de encontros. Cada lugar é o lugar da grande política.
O campo da saúde, é um campo da prática de produção de cuidado, que liga-se a produção de biopoderes, biopolítica.
A indústria farmacêutica invade o modo de existir do indivíduo, trazendo uma idéia perversa de que ter saúde é um risco de ser doente. “Tome o medicamento para não ter o que você não tem.” Hoje alimento não é mais alimento, é remédio. Você está em risco por que tem saúde... È o processo de subjetivação coletiva transformado em processos vitais. O próprio processo de investimento é desinvestido, desterritorializado. A medicina tem tendência a ser tecnóloga: o especialismo.
O interdisciplinar é paradoxal, prefere o trabalho ENTRE.
A vida em sua produção é resistência, precisamos sustentar a produção de vida. Temos que compor cotidianos de vida, estes são lugares de construção de resistência, mesmo que ninguém saiba. A capacidade que temos de vida, é o que faz-nos sobreviver além.
domingo, 16 de maio de 2010
Sem Receitas Para Pais e Educadores - Lançamento do Livro
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
O Crack: Como Lidar Com este Grave Problema
Breve panorama do crack
O panorama mundial da difusão do uso do cloridrato de cocaína (pó) por aspiração intranasal esteve associado, a partir da década de 60, à falta de algumas drogas no mercado, como a anfetamina e a maconha, devido às ações repressivas. Contudo, o alto preço do produto levou usuários de drogas à descoberta de outras formas de uso com efeitos mais intensos, apesar de menor duração. Desse cenário, no início de 1980, aparecem novas drogas obtidas a partir da mistura de cloridrato de cocaína com ingredientes cada vez mais incertos e tóxicos. Tempos depois, surge o uso do crack, outra forma fumável de cocaína, disseminando-se no Brasil, oficialmente a partir de 1989, alastrando-se atualmente, em vários segmentos sociais de gênero, sexo, idade e classe social.
Na produção de crack não há o processo de purificação final. O cloridrato de cocaína é dissolvido em água e adicionado em bicarbonato de sódio. Essa mistura é aquecida e, quando seca, adquire a forma de pedras duras e fumáveis. Além dos alcalóides de cocaína e bicarbonato de sódio, essas pedras contêm as sobras de todos os ingredientes que já haviam sido adicionados anteriormente durante o refino da cocaína. As pedras de crack são vendidas já prontas para serem fumadas. Sua composição conta com uma quantidade imprecisa de cocaína, suficiente para que possa produzir efeitos fortes e intensos. Além disso, para obter a produção final do crack são misturadas à cocaína diversas substâncias tóxicas como gasolina, querosene e até água de bateria.
O uso disseminado do crack no mundo das drogas está relacionado a vários fatores que levaram a uma grave transformação, tanto na oferta quanto na procura. De um lado, o controle mundial repressivo sobre os insumos químicos necessários a sua produção – como éter e acetona – leva os produtores a baratear cada vez mais sua fabricação, com a utilização indiscriminada de outros ingredientes altamente impuros. Quanto mais barata sua produção, mais rentável é sua venda. Por outro lado, o crack representa para a população usuária de drogas um tipo de cocaína acessível, pois vendido em pequenas unidades baratas, oferece efeitos rápidos e intensos. Entretanto, a desejada intoxicação cocaínica proporcionada pelo crack provoca efeitos de pouca duração, o que leva o usuário a fumar imediatamente outra pedra. Esse ciclo ininterrupto de uso potencializa os prejuízos à saúde física, as possibilidades de dependência e os danos sociais. A inovação no mercado das drogas com a entrada do crack atraiu pequenos traficantes, agravou ainda mais a situação, com o aumento incontrolável de produções caseiras, se diferenciando conforme a região do país.
À cocaína é misturada uma variedade incerta de reagentes químicos em sua preparação. O desconhecimento quanto a sua composição pode dificultar, muitas vezes, as intervenções emergenciais de cuidados à saúde nos casos de intoxicação aguda sofrida por alguns usuários. Tais condições, porém, não impossibilitam o desenvolvimento de ações voltadas à saúde e ao bem-estar social da referida população
Formas de uso e seus efeitos
O crack é fumado por ser uma forma mais rápida (e barata) de a droga chegar ao cérebro e produzir seus efeitos. A pedra é quebrada e fumada de diversas maneiras e em diferentes recipientes: enrolada no cigarro de tabaco ou misturada na maconha – forma que parece amenizar psiquicamente os efeitos maléficos da droga, como o sentimento de perseguição, a agitação motora e posteriormente a depressão. É também fumado em cachimbos improvisados feitos em tubos de PVC ou em latas de alumínio muitas vezes coletados na rua ou no lixo, apresentando possibilidades de contaminação infecciosa. O uso de latas favorece a aspiração de grande quantidade de fumaça pelo bocal, promovendo intoxicação pulmonar muito intensa.
São vários os tipos de danos causados pelo uso de crack. Além dos problemas respiratórios pela inspiração de partículas sólidas, sua ação estimulante leva à perda de apetite, falta de sono e agitação motora e, a dificuldade de ingestão de alimentos pode levar à desnutrição, desidratação e gastrite. Podem ser ainda observados sintomas físicos como rachadura nos lábios pela falta de ingestão de água e de salivação, cortes e queimaduras nos dedos das mãos e às vezes no nariz, provocados pelo ato de quebrar e acender a pedra, além de ficar o usuário mais exposto ao risco social e de doenças.
Gestores de saúde mental relatam aumento no consumo de crack em regiões que não apresentavam consumo significativo da droga, em especial no nordeste e nas cidades fora dos grandes centros urbanos. O aumento parece estar relacionado com o baixo custo e as características dos efeitos procurados, embora sejam necessários estudos e pesquisa sobre a influência desses ou outros fatores.
Atenção integral em saúde e saúde mental aos usuários de crack
Como todo uso de drogas está associado a fatores biopsicossociais, o consumo de crack não é diferente. Além dos problemas físicos já descritos, há os de ordem psicológica, social e legal. Ocorrem graves perdas nos vínculos familiares, nos espaços relacionais, nos estudos e no trabalho, bem como a troca de sexo por drogas e, ainda, podendo chegar à realização de pequenos delitos para a aquisição da droga. Há controvérsia se tais condutas socialmente desaprovadas têm relação com o estado de “fissura” para usar ou se resulta da própria intoxicação. A unanimidade é que o usuário desemboca numa grave e complexa exclusão social.
As abordagens ao usuário de crack exigem criatividade, paciência e respeito aos seus direitos, enquanto cidadão, para superar seu estado de vulnerabilidade, riscos, estigma e marginalização. Estratégias preventivas podem ser levantadas não somente entre esse novo grupo, como também dirigidas àqueles usuários que, por algum motivo, ainda não se aventuraram nesse tipo de droga.
O atendimento ao dependente de crack deve considerar alguns importantes critérios:
1. O usuário que não procura tratamento: a ele devem ser dirigidas estratégias de cuidados à saúde, de redução de danos e de riscos sociais e à saúde. As ações devem ser oferecidas e articuladas por uma rede pública de serviços de saúde e de ações sociais e devem ser feitas por equipes itinerantes, como os consultórios de rua, que busquem ativamente ampliar o acesso aos cuidados em saúde e em saúde mental destes usuários. A perspectiva dessa abordagem objetiva os cuidados da saúde como também as possibilidades de inserção social.
2. A porta de entrada na rede de atenção em saúde deve ser a Estratégia de Saúde Família e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Estes serviços especializados devem ser os organizadores das demandas de saúde mental no território. Os CAPS devem dar apoio especializado às ESF, fazer articulações intersetoriais (educação, assistência social, justiça, cultura, entre outros) e encaminhar e acompanhar os usuários à internação em hospitais gerais, quando necessário.
3. Quando o usuário acessa as equipes de saúde e de saúde mental, é necessária uma avaliação clínica das suas condições de saúde física e mental, para a definição das intervenções terapêuticas que devem ser desenvolvidas. É importante que se faça uma avaliação de risco pelas equipes de saúde para se definir se é necessária ou não a internação.
4. A internação deve ser de curta duração, em hospital geral da rede pública, com vistas à desintoxicação associada aos cuidados emergenciais das complicações orgânicas e/ou à presença de algum tipo de co-morbidade desenvolvida com o uso. É concebível e muito comum que usuários de crack, ainda que num padrão de uso preocupante, resistam à internação e optem pela desintoxicação e cuidados clínicos em regime aberto, acompanhado nos CAPSad por uma equipe interdisciplinar, nos níveis de atendimento intensivo, semi-intensivo e até o não intensivo. Nesse caso, a boa evolução clínica, psíquica e social dependerá da articulação inter e intrasetorial das redes de apoio, inclusive e se possível, com mobilização familiar.
5. A decisão pela internação deve ser compreendida como parte do tratamento, atrelada a um projeto terapêutico individual e, assim como a alta hospitalar e o pós-alta, deve ser de natureza interdisciplinar. Intervenções e procedimentos isolados mostram-se ineficazes, com pouca adesão e curta duração, além de favorecer o descrédito e desalento da família e mais estigma ao usuário.
Estratégias de intervenção e cuidados da rede de saúde:
- Avaliação interdisciplinar para cuidados clínicos (e psiquiátricos, se necessário)
- Construção de Projeto Terapêutico Individual, articulado inter e intrasetorialmente
- Atenção básica (via ESF e NASF, com participação de profissionais de AD)
- CAPSad – acolhimento nos níveis intensivo, semi-intensivo até não intensivo
- Leitos em hospital geral
- Consultórios de rua, casas de passagem
- Estratégias de redução de danos
- Articulação com outras Políticas Públicas: Ação Social, Educação, Trabalho, Justiça, Esporte, Direitos Humanos, Moradia.
Referências bibliográficas de consulta:
1. Domanico, A. & MacRae, E. Estratégias de Redução de Danos entre Usuários de Crack. In: Silveira, D. X. & Moreira, F. G. Panorama Atual de Drogas e Dependências. São Paulo: Ed. Atheneu, 2006.
2. Silveira, DX, Labigalini E. e Rodrigues, LR Redução de danos no uso de maconha por dependentes de crack. In: SOS crack prevenção e tratamento. Governo do Estado de São Paulo, 1998.
3. Andrade, AG, Leite, MC e col. Cocaína e crack: dos fundamentos ao tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
4. Governo de São Paulo. SOS crack: prevenção e tratamento, diretrizes e resumos de trabalhos, 1999.
5. Silva, SL. Mulheres da luz: uma etnografia dos usos e da preservação no uso do crack. 2000.
15.dezembro.2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Convite - REDE SOCIAL DE AMAMENTAÇÃO DE ARAXÁ E MICRORREGIÃO
Assunto: Convite para a reunião de sensibilização para a participação da REDE SOCIAL DE AMAMENTAÇÃO DE ARAXÁ E MICRORREGIÃO
Em cumprimento às recomendações da OMS/UNICEF e Ministério da Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde de Araxá através do projeto MATERNAR convida para a reunião da implantação da REDE SOCIAL DE AMAMENTAÇÃO DE ARAXÁ E MICRORREGIÃO.
Data: 17/11/09
Atenciosamente,
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Rede de Saúde Mental e ECOSOL: a construção de uma rede de colaboração solidária
A Rede de Saúde Mental e Economia Solidária surge, primeiramente, como dispositivo que aponta a falência do manicômio, ao mesmo tempo em que tece possibilidades reais de contrapor a lógica de exclusão sócio-econômica tentando resgatar o fazer, os desejos e os transbordamentos daqueles que se propõem a dar algum sentido à loucura.
Esta Rede é resultado de um conjunto de atividades organizadas entre a Saúde Mental e a Economia Solidária1.
Aqui busca-se afirmar o conceito de Rede tão presente no processo de Reforma Psiquiátrica brasileira, como em todo o processo de construção desse novo ator social, que é a Economia Solidária.
A Saúde e sua organização em Rede
Na lógica da territorialização, os serviços de saúde mental não são voltados a tratar a doença, mas se configuram como dispositivos de promoção de saúde, de espaço de criação e desenvolvimento de sociabilidades e o cuidado oferecido mostra-se como porto seguro para o indivíduo e sua comunidade.
A implementação desses equipamentos não pode ser realizada a partir de territórios isolados uns dos outros, sendo necessário toda uma estratégia de conexão dos mesmos, tendo não mais o hospital (psiquiátrico ou não) como seu principal paradigma mas, uma complexa rede de inter-relação onde desde a unidade básica de saúde, da visita domiciliar do PSF, passando pelos CAPS e os hospitais gerais, tece-se uma grande teia voltada ao atendimento público e gratuito e que promove saúde e qualidade de vida.
Sendo assim, o processo de implementação e fortalecimento da Reforma Psiquiátrica não pode ser entendido como um processo que um dia vai ser definitivamente implementado. Mas, pelo contrário, a construção da RP é um processo coletivo que sempre necessitará de aperfeiçoamento e de melhoras, já que o mesmo deve estar aberto a sua própria superação, pois é fundado sobre a estratégia de Rede.
É importante salientar que o atual processo de passagem da gestão do SUS para as mãos da iniciativa privada (as chamadas Organizações Sociais - OS`s) é um processo arriscado e perigoso, pois ataca frontalmente a integralidade do sistema e de sua estratégia de construção de uma Rede pública de promoção de saúde e de cuidado. A "terceirização" da saúde, como alguns preferem chamar, é uma das maiores ameaças ao Sistema Público e gratuito de saúde (conquista dos trabalhadores e usuários) e que virou referência internacional de universalidade das ações de saúde2.
A entrega dos equipamentos de saúde mental às organizações sociais, entre outras desvantagens, dificulta o trabalho organizado em Rede, já que os equipamentos podem ser geridos por O.S`s diferentes dependendo dos critéiros elegidos pela administração municipal. A lógica de funcionamento das O.S`s não prioriza o diálogo entre os equipamentos e o trabalho conjunto baseado na parceria; o que impera na lógica de funcionamento é a do mercado, que não permite colaboração ou solidariedade entre os equipamentos, mas acirra a competição e promove o isolamento.
Inserção no Trabalho e Saúde Mental: Porque a estratégia em Rede?
Ao falar em Rede falamos essencialmente de diversidade e de potencialização de uma sinergia coletiva; um processo aberto e de construção de enunciações coletivas. As redes são espaços abertos ao diálogo e a troca onde cada membro, cada parte só se fortalece a partir de um processo mesmo de fortalecimento do coletivo3 ali envolvido. A consistência da rede assim se constrói através de relações, de fluxos, de pulsões que se realiza na colaboração, em seu processo mesmo de diversidade. Quanto mais diversidade, mais forte se faz uma Rede. Um movimento que não se funda no salto qualitativo da dialética, mas sim, num processo mesmo rizomático, onde o que vale, são as interrelações e seus fluxos.
Esse processo de organização da inserção no trabalho dos usuários da saúde mental através da organização da Rede vem reforçar todo um processo de organização de coletivos (projetos/ empreendimentos) de produção de conhecimentos, saberes, trabalho e cultura que já se operam nos equipamentos de saúde mental da rede pública de saúde.
A escolha na relação entre saúde mental e economia solidária de construção de uma Rede, vem primeiramente afirmar que:
a) são movimentos com histórias, dinâmicas e tempos diversos;
b) tem atores, movimentos, estratégias que se inter-relacionam/ trocam;
c) tem assim, em seu interior, singularidades que não concorrem, mas sim, que buscam a criação de espaços que possibilitem criar enunciações coletivas.
Assim, a construção de uma Rede se associa a idéia de não cairmos nos diversos erros já vistos no conjunto do movimento social e que ainda é a forma organizativa hegemônica: a de construção de "direções" que se mantém independente do processo vivo de mobilização e militância. Não caindo nesse processo tão danoso (e infelizmente, tão presente) de criação de personalidades que representam o movimento social e que gera automaticamente um "culto a personalidade", a estratégia em Rede se torna uma tentativa de construção de movimentos sociais formados por diferentes (e não por iguais) que buscam não a construção de estruturas verticais ou direções, mas um processo vivo onde quem está presente - quem produz, vive e constrói a Rede - é quem dá seu sentido e direção.
A Rede assim constitui-se através das dimensões ética, estética e política.
Politica: as redes de colaboração solidária constituem-se através de uma gestão autogestionária garantindo a todas as pessoas iguais condições de participar e decidir. Buscando dar visibilidade e ampliando as conquistas de políticas públicas emancipatórias que visam o apoio, fomento e a articulação de novas cadeias produtivas solidárias, que valorizem a diversidade de atores e processos, em especial, os segmentos sociais que foram históricamente "invisibilizados".
Ética: as redes de colaboração solidária promovem a diversidade, o compromisso pela qualidade de vida de todos e todas, o desejo do outro em sua valiosa diferença, para que cada pessoa ou coletivo possa usufruir nas melhores condições possíveis, das liberdades públicas e privadas. Desejar o diferente significa acolher a diversidade, em suma, acolher as mais variadas formas de realização singular da liberdade humana que não neguem as liberdades públicas e privadas eticamente exercidas. Promover as liberdades significa garantir às pessoas as condições materiais, políticas, informativas e educativas para uma existência ética e solidária.
Estética: porque a Rede constrói plasticidades, efeitos, atividades, enunciados que se formam no coletivo. Expressando, a combinação de cores, acordes, sentidos das diversas singularidades manifestas nos projetos/ empreendimentos e nos usuários envolvidos.
A força da Rede de Saúde Mental e Ecosol reside nos diversos projetos/empreendimentos de trabalho que tenham como protagonistas os usuários de saúde mental que dela fazem parte e nesse sentido busca ser um espaço vivo de encontro e trocas. Nesse espaço não é o transtorno mental ou a dificuldade derivada do sofrimento que é evidenciada, mas sim a beleza das produções. E são tantas...bolsas, artesanato, quadros, poesia, música, dança, samba, etc.
Nesse processo os tempos dos projetos/ empreendimentos se chocam, pois alguns já estão em um momento mais avançado na inserção econômica e social. A impaciência de alguns, a tentativa de agir sozinho e de avançar sem os outros torna-se a grande tentação. A idéia de que um projeto é melhor que o restante é sempre um grande perigo e pode levar à morte uma Rede de colaboração solidária. Nesse sentido, a paciência, o respeito às temporalidades e as diferenças e a criação de enunciações coletivas são os principais pilares para a construção de uma Rede.
Nesse sentido, a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária se configura como um espaço nômade, capaz de expressar em sua diversidade as singularidades de temporalidades diversas, que podem sim, conectar-se no objetivo comum que é inserir no campo do trabalho os usuários da saúde mental. A Rede pode ser entendida como um espaço, um coletivo, do que é produzido dentro dos equipamentos de saúde, já que o projeto de geração de trabalho e renda daquele serviço que participa da Rede é resultado da clínica emancipadora praticada, pois o técnico da saúde mental que preza pela autonomia e emancipação do sujeito que é usuário criará tecnologias e coletivos que darão conta da questão do trabalho do usuário.
As principais características de nossa Rede são:
a) organizar uma diversidade de projetos/ empreendimentos em um movimento orgânico com potencial transformador;
b) buscar saídas coletivas desses projetos por trabalho, renda e pela afirmação e fortalecimento de suas singularidades
c) são em sua própria dinâmica a negação das estruturas de exploração do trabalho, de expropriação no consumo e de dominação política e cultural, e
d) criam em sua diversidade novas formas pós-capitalista de produzir e consumir, de organizar a vida coletiva afirmando o direito à diferença e à singularidade de cada projeto/ empreendimento;
A título de conclusão o objetivo básico da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária é construir de maneira solidária e ecológica novas cadeias produtivas, que tenham em seu interior a potência de agir, o afecto fundado no coletivo. Fazendo, dos projetos/ empreendimentos de trabalho da saúde mental um agente econômico, social, político e estético fundados na criação e no potencial produtivo dos usuários de saúde mental.
Notas:
1. No ano de 2008, duas atividades de discussão e formação entre atores da Reforma Psiquiátrica marcaram a agenda desses encontros: as atividades contaram com a presença do Prof. Dr. Valmor Schiochet, do Núcleo de Programas Sociais da Superintendência Regional do Trabalho-SP, além do Fórum Paulista de ECOSOL. As atividades ocorreram no Programa de Pós Graduação de Enfermagem - USP e no CAPS Itaim Bibi. A partir, dessas atividades a Rede começou a se reunir de 15 em 15 dias, e posteriormente mensalmente, realizando: a) formação de 58 multiplicadores em Saúde Mental e ECOSOL e a I Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na Escola de Enfermagem da USP. Mais recentemente, a Rede organizou um ônibus, com apoio do CRP-SP e do SINPSI, para a Marcha dos Usuários, participando e entregando suas reivindicações em uma Audiência com o Prof. Paul Singer (SENAES/MTE). Em breve, ocorrerá a II Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na cidade de Embú das Artes.
2. Benedetto Saraceno, da Organização Mundial de Saúde, em visita ao Brasil, em 2009, realizando diversas Conferências e reuniões com o Ministério da Saúde afirmou que: "Fortalecer a Reforma Psiquiátrica brasileira é fortalecer a OMS",
3. Entendido esses coletivos, como aponta Jean Oury, no livro, O Coletivo. Ed. Hucitec, 2009: "Pode-se então, de maneira metodológica, considerar, mas muito provisoriamente, a palavra "Coletivo" como um tipo de "caixa preta"(cf. A lógica das caixas pretas), tentando a princípio, ver o que sai, quais são os efeitos, quais são os efeitos desejados. Seria o trabalho de cada um fazer uma lista - jamais exaustiva - do que é desejado".
Leonardo Penafiel Pinho e Marilia Capponi
www.projetosterapeuticos.com.br