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domingo, 6 de junho de 2010

Economia Solidária

A Rede Brasileira de Saúde Mental e Economia Solidária ampliou o número de iniciativas de geração de trabalho e renda. Já são 393 experiências mapeadas, que articulam sistematicamente a saúde mental e a economia solidária.
 
Parceira entre os ministérios da Saúde e do Trabalho e Emprego (Secretaria Nacional de Economia Solidária) permitiu a criação de uma política de incentivo técnico e financeiro para as iniciativas de geração de renda. Essas medidas ampliam e fortalecem o acesso ao trabalho e a renda de pacientes com transtornos mentais e/ou que apresentam problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas. 
Em 2001 eram menos de 10 parcerias, em 2010 já são 345 iniciativas de inclusão social pelo trabalho cadastradas.
A Coordenação Nacional de Saúde Mental utiliza o Cadastro Nacional das Iniciativas de Inclusão Social pelo Trabalho (CIST) para mapear as experiências de geração de trabalho e renda no campo da saúde mental. Este cadastro é um importante instrumento para a construção de uma rede de apoio às iniciativas de geração de trabalho e renda no campo da saúde mental.
O CIST encontra-se disponível no endereço eletrônico abaixo:

Coordenação Nacional de Saúde Mental
Ministério da Saúde

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rede de Saúde Mental e ECOSOL: a construção de uma rede de colaboração solidária

O presente texto busca fazer uma reflexão acerca da construção da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária, mas não num sentido de enumerar suas realizações, e sim dar relevo a estratégia de construção de redes de colaboração solidárias destacando a importância de reafirmar um dos principais referenciais para a construção do processo da Reforma Psiquiátrica brasileira: a estratégia de Rede.
A Rede de Saúde Mental e Economia Solidária surge, primeiramente, como dispositivo que aponta a falência do manicômio, ao mesmo tempo em que tece possibilidades reais de contrapor a lógica de exclusão sócio-econômica tentando resgatar o fazer, os desejos e os transbordamentos daqueles que se propõem a dar algum sentido à loucura.
Esta Rede é resultado de um conjunto de atividades organizadas entre a Saúde Mental e a Economia Solidária1.
Aqui busca-se afirmar o conceito de Rede tão presente no processo de Reforma Psiquiátrica brasileira, como em todo o processo de construção desse novo ator social, que é a Economia Solidária.

A Saúde e sua organização em Rede

Na lógica da territorialização, os serviços de saúde mental não são voltados a tratar a doença, mas se configuram como dispositivos de promoção de saúde, de espaço de criação e desenvolvimento de sociabilidades e o cuidado oferecido mostra-se como porto seguro para o indivíduo e sua comunidade.
A implementação desses equipamentos não pode ser realizada a partir de territórios isolados uns dos outros, sendo necessário toda uma estratégia de conexão dos mesmos, tendo não mais o hospital (psiquiátrico ou não) como seu principal paradigma mas, uma complexa rede de inter-relação onde desde a unidade básica de saúde, da visita domiciliar do PSF, passando pelos CAPS e os hospitais gerais, tece-se uma grande teia voltada ao atendimento público e gratuito e que promove saúde e qualidade de vida.
Sendo assim, o processo de implementação e fortalecimento da Reforma Psiquiátrica não pode ser entendido como um processo que um dia vai ser definitivamente implementado. Mas, pelo contrário, a construção da RP é um processo coletivo que sempre necessitará de aperfeiçoamento e de melhoras, já que o mesmo deve estar aberto a sua própria superação, pois é fundado sobre a estratégia de Rede.
É importante salientar que o atual processo de passagem da gestão do SUS para as mãos da iniciativa privada (as chamadas Organizações Sociais - OS`s) é um processo arriscado e perigoso, pois ataca frontalmente a integralidade do sistema e de sua estratégia de construção de uma Rede pública de promoção de saúde e de cuidado. A "terceirização" da saúde, como alguns preferem chamar, é uma das maiores ameaças ao Sistema Público e gratuito de saúde (conquista dos trabalhadores e usuários) e que virou referência internacional de universalidade das ações de saúde2.
A entrega dos equipamentos de saúde mental às organizações sociais, entre outras desvantagens, dificulta o trabalho organizado em Rede, já que os equipamentos podem ser geridos por O.S`s diferentes dependendo dos critéiros elegidos pela administração municipal. A lógica de funcionamento das O.S`s não prioriza o diálogo entre os equipamentos e o trabalho conjunto baseado na parceria; o que impera na lógica de funcionamento é a do mercado, que não permite colaboração ou solidariedade entre os equipamentos, mas acirra a competição e promove o isolamento.

Inserção no Trabalho e Saúde Mental: Porque a estratégia em Rede?

Ao falar em Rede falamos essencialmente de diversidade e de potencialização de uma sinergia coletiva; um processo aberto e de construção de enunciações coletivas. As redes são espaços abertos ao diálogo e a troca onde cada membro, cada parte só se fortalece a partir de um processo mesmo de fortalecimento do coletivo3 ali envolvido. A consistência da rede assim se constrói através de relações, de fluxos, de pulsões que se realiza na colaboração, em seu processo mesmo de diversidade. Quanto mais diversidade, mais forte se faz uma Rede. Um movimento que não se funda no salto qualitativo da dialética, mas sim, num processo mesmo rizomático, onde o que vale, são as interrelações e seus fluxos.
Esse processo de organização da inserção no trabalho dos usuários da saúde mental através da organização da Rede vem reforçar todo um processo de organização de coletivos (projetos/ empreendimentos) de produção de conhecimentos, saberes, trabalho e cultura que já se operam nos equipamentos de saúde mental da rede pública de saúde.

A escolha na relação entre saúde mental e economia solidária de construção de uma Rede, vem primeiramente afirmar que:

a) são movimentos com histórias, dinâmicas e tempos diversos;

b) tem atores, movimentos, estratégias que se inter-relacionam/ trocam;

c) tem assim, em seu interior, singularidades que não concorrem, mas sim, que buscam a criação de espaços que possibilitem criar enunciações coletivas.

Assim, a construção de uma Rede se associa a idéia de não cairmos nos diversos erros já vistos no conjunto do movimento social e que ainda é a forma organizativa hegemônica: a de construção de "direções" que se mantém independente do processo vivo de mobilização e militância. Não caindo nesse processo tão danoso (e infelizmente, tão presente) de criação de personalidades que representam o movimento social e que gera automaticamente um "culto a personalidade", a estratégia em Rede se torna uma tentativa de construção de movimentos sociais formados por diferentes (e não por iguais) que buscam não a construção de estruturas verticais ou direções, mas um processo vivo onde quem está presente - quem produz, vive e constrói a Rede - é quem dá seu sentido e direção.

A Rede assim constitui-se através das dimensões ética, estética e política.

Politica: as redes de colaboração solidária constituem-se através de uma gestão autogestionária garantindo a todas as pessoas iguais condições de participar e decidir. Buscando dar visibilidade e ampliando as conquistas de políticas públicas emancipatórias que visam o apoio, fomento e a articulação de novas cadeias produtivas solidárias, que valorizem a diversidade de atores e processos, em especial, os segmentos sociais que foram históricamente "invisibilizados".

Ética: as redes de colaboração solidária promovem a diversidade, o compromisso pela qualidade de vida de todos e todas, o desejo do outro em sua valiosa diferença, para que cada pessoa ou coletivo possa usufruir nas melhores condições possíveis, das liberdades públicas e privadas. Desejar o diferente significa acolher a diversidade, em suma, acolher as mais variadas formas de realização singular da liberdade humana que não neguem as liberdades públicas e privadas eticamente exercidas. Promover as liberdades significa garantir às pessoas as condições materiais, políticas, informativas e educativas para uma existência ética e solidária.

Estética: porque a Rede constrói plasticidades, efeitos, atividades, enunciados que se formam no coletivo. Expressando, a combinação de cores, acordes, sentidos das diversas singularidades manifestas nos projetos/ empreendimentos e nos usuários envolvidos.

A força da Rede de Saúde Mental e Ecosol reside nos diversos projetos/empreendimentos de trabalho que tenham como protagonistas os usuários de saúde mental que dela fazem parte e nesse sentido busca ser um espaço vivo de encontro e trocas. Nesse espaço não é o transtorno mental ou a dificuldade derivada do sofrimento que é evidenciada, mas sim a beleza das produções. E são tantas...bolsas, artesanato, quadros, poesia, música, dança, samba, etc.
Nesse processo os tempos dos projetos/ empreendimentos se chocam, pois alguns já estão em um momento mais avançado na inserção econômica e social. A impaciência de alguns, a tentativa de agir sozinho e de avançar sem os outros torna-se a grande tentação. A idéia de que um projeto é melhor que o restante é sempre um grande perigo e pode levar à morte uma Rede de colaboração solidária. Nesse sentido, a paciência, o respeito às temporalidades e as diferenças e a criação de enunciações coletivas são os principais pilares para a construção de uma Rede.
Nesse sentido, a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária se configura como um espaço nômade, capaz de expressar em sua diversidade as singularidades de temporalidades diversas, que podem sim, conectar-se no objetivo comum que é inserir no campo do trabalho os usuários da saúde mental. A Rede pode ser entendida como um espaço, um coletivo, do que é produzido dentro dos equipamentos de saúde, já que o projeto de geração de trabalho e renda daquele serviço que participa da Rede é resultado da clínica emancipadora praticada, pois o técnico da saúde mental que preza pela autonomia e emancipação do sujeito que é usuário criará tecnologias e coletivos que darão conta da questão do trabalho do usuário.

As principais características de nossa Rede são:

a) organizar uma diversidade de projetos/ empreendimentos em um movimento orgânico com potencial transformador;

b) buscar saídas coletivas desses projetos por trabalho, renda e pela afirmação e fortalecimento de suas singularidades

c) são em sua própria dinâmica a negação das estruturas de exploração do trabalho, de expropriação no consumo e de dominação política e cultural, e

d) criam em sua diversidade novas formas pós-capitalista de produzir e consumir, de organizar a vida coletiva afirmando o direito à diferença e à singularidade de cada projeto/ empreendimento;

A título de conclusão o objetivo básico da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária é construir de maneira solidária e ecológica novas cadeias produtivas, que tenham em seu interior a potência de agir, o afecto fundado no coletivo. Fazendo, dos projetos/ empreendimentos de trabalho da saúde mental um agente econômico, social, político e estético fundados na criação e no potencial produtivo dos usuários de saúde mental.

Notas:

1. No ano de 2008, duas atividades de discussão e formação entre atores da Reforma Psiquiátrica marcaram a agenda desses encontros: as atividades contaram com a presença do Prof. Dr. Valmor Schiochet, do Núcleo de Programas Sociais da Superintendência Regional do Trabalho-SP, além do Fórum Paulista de ECOSOL. As atividades ocorreram no Programa de Pós Graduação de Enfermagem - USP e no CAPS Itaim Bibi. A partir, dessas atividades a Rede começou a se reunir de 15 em 15 dias, e posteriormente mensalmente, realizando: a) formação de 58 multiplicadores em Saúde Mental e ECOSOL e a I Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na Escola de Enfermagem da USP. Mais recentemente, a Rede organizou um ônibus, com apoio do CRP-SP e do SINPSI, para a Marcha dos Usuários, participando e entregando suas reivindicações em uma Audiência com o Prof. Paul Singer (SENAES/MTE). Em breve, ocorrerá a II Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na cidade de Embú das Artes.

2. Benedetto Saraceno, da Organização Mundial de Saúde, em visita ao Brasil, em 2009, realizando diversas Conferências e reuniões com o Ministério da Saúde afirmou que: "Fortalecer a Reforma Psiquiátrica brasileira é fortalecer a OMS",
ver na página: http://www.projetosterapeuticos.com.br/www.saudeecosol.wordpress.com.

3. Entendido esses coletivos, como aponta Jean Oury, no livro, O Coletivo. Ed. Hucitec, 2009: "Pode-se então, de maneira metodológica, considerar, mas muito provisoriamente, a palavra "Coletivo" como um tipo de "caixa preta"(cf. A lógica das caixas pretas), tentando a princípio, ver o que sai, quais são os efeitos, quais são os efeitos desejados. Seria o trabalho de cada um fazer uma lista - jamais exaustiva - do que é desejado".

Leonardo Penafiel Pinho e Marilia Capponi
www.projetosterapeuticos.com.br

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Rede de Saúde Mental e Economia Solidária

Esta rede é um coletivo de organizações da sociedade civil que visa articular experiências de inserção no trabalho através de de empreendimentos econômicos e solidários e projetos de geração de renda, organizados por usuários, técnicos e familiares dos serviços substitutivos da rede de Saúde Mental do Estado de São Paulo. O site divulga experiências significativas nesta área, além de disponibilizar bons textos e vídeos. Vale a pena conferir:

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Convivência é o Melhor Remédio



As vozes que já deram tom ao choro da depressão ou gritaram por socorro diante das alucinações hoje cantam músicas suaves. As mãos que um dia ameaçaram dar fim à própria vida tecem colchas, cozinham quitutes e dão forma à arte feita em madeira. Em centros de convivência, um dos componentes do tratamento substitutivo aos manicômios, pacientes de saúde mental encontram o caminho da cura por meio de oficinas de arte, culinária e esportes e a partir da conjugação do verbo conviver. Pioneiro em Belo Horizonte, que conta com nove dessas unidades, o formato terapêutico deu tão certo que foi incorporado como modelo de reabilitação psicossocial pelo Ministério da Saúde, em 2004. O encaminhamento do usuário é feito pelos médicos dos postos de saúde ou dos Centros de Referência de Saúde Mental (Cersams). O paciente é convidado a adotar remédios como a música, teatro, dança, artes plásticas, culinária e esportes. “Por causa dos mitos da periculosidade e da incapacidade produtiva, essas pessoas foram retiradas do convívio em sociedade. Estamos provando no cotidiano que o contrário é possível”, afirma Marta Soares, gerente do Centro de Convivência São Paulo, na Região Nordeste de BH, o mais antigo da capital, fundado há 16 anos. Além dos mais de 100 usuários da rede de saúde mental, frequentam o espaço adolescentes e crianças. “Acredito que esses jovens poderão ser mais conscientes, pois crescem vendo aspectos sérios da condição humana”, ressalta. Frequentador do Centro São Paulo, Sérvio Sadi, de 46 anos, descobriu nas oficinas de pintura e desenho uma profissão. E mais: a importância da reforma psiquiátrica. “Quero mostrar para a sociedade que temos que acabar com a discriminação e fazer com que compreendam que nós temos valores. Saúde mental para todos!”, afirma. Colega dele no espaço, Maria Auxiliadora esteve internada em um hospital psiquiátrico por um ano e 45 dias, mas foi nas aulas de música que encontrou tratamento. “Deixo qualquer coisa que estou fazendo para vir para cá. Tenho um vazio muito grande dentro de mim e a música é uma coisa que me dá prazer”, afirma. Três vezes por semana, ela entoa canções e ensaia com os demais componentes do Coral Devotos de São Doidão.

Cooperativa

Nos centros de convivência, além de recuperar a autoestima e refazer vínculos sociais, os usuários podem gerar renda. Parte das produções das oficinas é comercializada no Coisa de Louco Bazar e o artista recebe uma porcentagem da venda. Criada e gerida por frequentadores de centros de convivência, a cooperativa Suricato – Associação de Trabalho e Produção Solidária também abre as portas do mercado para quem carrega o estigma do transtorno mental. A incubadora mantém quatro grupos de trabalho: mosaico, marcenaria, costura e culinária. Nilza Belisário Geraldo, de 54, participa da turma da cozinha. “Sempre sonhei em ser salgadeira, tive oportunidade de fazer o curso no Fórum Mineiro de Saúde Mental e agora estou trabalhando. Com o pouquinho que recebi, comprei uma colcha”, conta. O marceneiro Cleiton Xavier, de 28, há quatro integra a cooperativa. Para ele, a recompensa é muito maior que o dinheiro das vendas. “Tenho desenvolvido um trabalho promissor na Suricato. Até abri uma caderneta de poupança para mim. E aqui ainda existe a solidariedade, a união. Encontrei o outro lado da minha vida, a alegria. Já diminuíram a dose do meu remédio, melhorei muito. Eu achava que ia parar numa camisa de força. Achava que as pessoas iam olhar para mim com preconceito, porque o pessoal lá de fora não tem compaixão com quem tem sofrimento mental”, afirma.

www.uai.com.br