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domingo, 15 de maio de 2011

Nosso CAPS já tem nome: CAPS MARIA PIROLA


O CAPS II de Araxá foi reconhecido e nomeado através da Lei Municipal 5951/2011, como CAPS MARIA PIROLA.

O nome foi escolhido pelos usuários do CAPS em uma Oficina e aprovado em Assembléia Geral de Usuários, Familiares, Profissionais, e Amigos da Saúde Mental de Araxá. Os usuários justificaram a escolha na questão de que conheceram Maria Pirola, e hoje entendem que muitas de suas crises, delírios e seu vagar sem destino certo pela cidade, se deviam à falta de cuidados dignos em Saúde Mental. Ela não teve a oportunidade que muitos têm hoje, de decidir sobre seu tratamento, viver com a família, ter reconhecidos seus direitos de cidadão e lutar pela preservação dos mesmos. Uma justa homenagem... e que Maria Pirola inspire muitas Marias e Josés em suas caminhadas...

Aqui um pouco da história de Maria Pirola...



MARIA PIROLA

Autor: EDNEI, um amigo da Saúde Mental

Diz um ditado de autor desconhecido que “alguns procuram a felicidade, outros a criam”, e nisso sabemos que a felicidade está nas normalidades e nas diferenças.

Pensando nisso nos reportamos ao dia 10 de fevereiro de 1902 em plena segunda-feira dia do nascimento de nossa homenageada MARIA ANANIAS DE SOUZA, na cidade-irmã Ibiá, Minas Gerais. Nasceu no mesmo dia de Santa Escolástica, a santa que cultivava o silêncio, mas que clamava com fervor quando necessário, e o ousou quando precisou. Tal qual a nossa Maria, que ousava em suas fantasias, que na sua inocência eram realidade.

Maria de cor branca e corpo bonito não se sabe ao certo, já morando em Araxá teve o seu contato com o mundo do espetáculo quando aqui chegou um circo da fantasia, chamado Circo Pirolo, no qual dali pra frente foi contratada pelo mesmo, e passou a se apresentar como trapezista, batizada pelo palhaço Pirola com o nome artístico MARIA PIROLA, e aí Maria de Ananias de Souza, deixou de existir passando a ser só Maria Pirola. Ela trabalhou no circo por alguns anos, até que os primeiros sinais de suas alterações psicológicas começassem a surgir lá pelos 40 anos de idade. O comerciante Walter Natal, amigo de Maria Pirola acredita que ela não tinha problemas mentais, o seu problema era ser inocente ao extremo, ao ponto de acreditar que se falassem que ela possuía vários imóveis na cidade, conta bancaria recheada, ela acreditava e alardeava para todo mundo se dizendo fiel proprietária de tudo. Segundo ele ela tornou-se folclórica na cidade por ter um jeito exótico de se vestir, sempre com as sandálias com os pés trocados, e vivia a perambular pela cidade dia e noite, mas gostava mesmo é de ficar na rodoviária velha, talvez por relembrar uma época para ela que nunca mais retornaria. Com o agravamento de sua saúde mental foi internada no Hospital Santa Maria em Sacramento, Minas Gerais, não casou-se legalmente, mas teve um companheiro chamado Aquiles, que faleceu de hanseníase, outra doença descriminante na época, não teve filhos, acabou parindo deste mundo através de uma parada cardíaca numa sexta feira de 17 de outubro de 1986, dia de Santo Inácio, santo que foi sacrificado numa cova de leões por ser firme em suas crenças, tal qual nossa homenageada que lutou para ser feliz do seu jeito, mas foi incompreendida por uma época onde não se distinguia inocência de loucura.

Como dizia Madre Tereza de Calcutá: “Não devemos permitir que alguém saia de nossa presença sem se sentir melhor e feliz”. Quem sabe Maria Pirola quis ser assim, e o preconceito e os preconceituosos a impediram.

DESEJAMOS QUE ATRAVÉS DO TRABALHO NO CAPS, COMECEMOS A ESCREVER UMA NOVA HISTÓRIA NA SAÚDE MENTAL, CORRIJAMOS E FAÇAMOS JUSTIÇA A TANTOS OUTROS QUE MORRERAM OU QUE VIVEM A MARGEM DA SOCIEDADE POR INCOMPREENSÃO.

sábado, 14 de maio de 2011

18 de Maio - Dia Nacional da Luta Antimanicomial

18 DE MAIO

DIA NACIONAL DA LUTA ANTIMANICOMIAL

“NA CONTRAMÃO DO PRECONCEITO...”

PROGRAMAÇÃO:

05.05.2011

OFICINA DE CINEMA

CAPS MARIA PIROLA - quinta-feira 13:00 - Filme a ser escolhido

06.05.2011

OFICINA DE CINEMA

UNISA - Sexta-feira 13:30 - Filme a ser escolhido

09.05.2011

ABERTURA DA OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES

UNILESTE - Segunda-feira 10:00

OFICINA DE CINEMA

UNINORTE - Segunda-feira 13:30 - Filme a ser escolhido

10.05.2011

APRESENTAÇÃO DO CORAL TAN-TAN LE-LÊ

Horário: 09:30 Local: UNILESTE

Horário: 10:00 local: UNISUL

OFICINA DE CINEMA

UNILESTE - terça-feira 14:00 Filme Patch Adams - O amor é contagioso

UNISUL – terça-feira 15:00 Filme Um estranho no ninho

17.05.2011

APRESENTAÇÃO DO CORAL TAN-TAN LE-LÊ

Horário: 09:30 Local: UNINORTE

Horário: 10:00 local: UNISA

CONFERÊNCIA NO INSTITUTO GREGÓRIO BAREMBLITT DE FRUTAL: A estratégia de redução de danos no Brasil – Experiências Antimanicomiais – conferencista: Domiciano Siqueira

20:00 Casa do Advogado – R. Castro Alves, 110 – Centro – Frutal

18.05.2011

9:00 – PALHACEATA Tema: O MUNDO DO CIRCO Concentração no CAPS MARIA PIROLA com caminhada até a Praça Governador Valadares, pela Rua Pres. Olegário Maciel. Traga ou crie sua fantasia e faça parte de nossa festa!

10:00 - ATIVIDADES CULTURAIS

Local: Praça Governador Valadares

Apresentação musical, teatro, varal de poesia, e exposição de produtos artesanais.

24.05.2011

APRESENTAÇÃO DO CORAL TAN-TAN LE-LÊ

Horário: 09:30 Local: SMS/UAE

Horário: 10:00 local: PREFEITURA

Informações: SAÚDE MENTAL DE ARAXÁ

Tel: (34) 3691.7137/7138 – 3662.8252

Blog: saudementalaraxa.blogspot.com

e-mail: saudemental@araxa.mg.gov.br

domingo, 10 de abril de 2011

Ousar - Estradear

"Ousemos... Inventemos... E que repitamos com os surrealistas: não será o medo da loucura que nos fará baixar as bandeiras da imaginação. Pelo direito à loucura, pela defesa da inclusão social e dos direitos humanos, por fazer caber na sociedade a loucura, tomemos de assalto a rua, a cidade e o céu".
Jorge Bichuetti

domingo, 8 de agosto de 2010

A verdade é o que você sente...

É o amor...
O resto é ilusão
A gente tem que chegar ao equilíbrio
Ao caminho do meio
Mas não é fácil não...
É preciso muitas oficinas de Pensamentos Livres...
O pensamento ultimamente é muito ruim...
Eu só tenho pensamentos negativos
Eu tô buscando melhora, ajuda
Eu sozinha não vou conseguir
Agora você conhece o caminho, o coração.
Eu agora só penso em morte
Às vezes, eu choro...
Eu penso muito na natureza, verde, flor.
Gosto de ganhar flores...
A criança retrata toda pureza, liberdade
Quando a gente é criança, é livre
Não tem pensamento ruim...
Quando a gente está doente, a liberdade acaba
Ficamos dependentes dos outros, de remédios.
“vou te contar...
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender...
Fundamental mesmo, é o amor...”
É impossível ser feliz sozinha
M. quando nós vamos catar umas goiabas?
Diz que Deus não castiga se roubar só frutas na horta do vizinho...
Na Rua Santa Rita, antiga Rua das Pedras
Tinha tantas mangas!
A gente juntava... tinha jabuticaba, limão, mexerica...
E era bom
Eu tinha doze anos...
Se não pode fugir, não
Lá fora é só ilusão...
Você tá dizendo o tempo todo que o importante tá dentro da gente???
A vida ensina pra gente que não vivemos sozinhos...
Que viver é sentir,
Não vegetar...
Não somos frutos do pecado
Do bem e do mal!
Se estamos aqui, É PRA VIVER!
Quando chegamos no coração
Chegamos no equilíbrio!
Quando passamos a viver o lado bom do amor,
O lado positivo
O lado ruim deixa de existir
Possa atrair as coisas boas
Por isso eu agradeço de estar aqui
Por isso eu amo todos vocês incondicionalmente.
Ninguém chega à felicidade senão for pelo coração.
“ostra feliz, não faz pérola...”

Poesia elaborada como construção coletiva em OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, pelos usuários e profissionais do Ambulatório de Saúde Mental de Araxá, em 03/08/2010.

UM PENSAMENTO LIVRE...

Não vivo de utopia...
A realidade é feita de supostas fantasias
A realidade é!
A criança em mim, a amo!
Em brincadeiras e momentos de expansão
Livres! Todos somos livres!
Mas o pensamento te condiciona...
Pensamento Livre...
Coisas que passam pela cabeça,
E não quer contar pra ninguém...
Falo o que sinto
Isso é pensamento livre.
Fantasio que estou em Paris...
Que fiz gol na copa...
Que estou com uma namorada bonita...
É o que pensa, imagina...
Você tem idéias a partir da música...
Cada um tem sua idéia...
Você pensa o que te toca,
O pensamento pode ser mais livre...
Ninguém aprende aandar sozinho
Pensamentos quaisquer.
As coisas devem nascer dos pensamentos
O pensamento fala também da infância...
Cada um viveu a sua.
Lembranças da infância...
O que meu pai fazia...
A região em que vivi...
A gente nunca deixa de ser criança.
As mesmas do hoje, não lembro tanto quanto do passado...
Estamos programados a viver desde o começo...
A gente não pode ser livre???
A minha idéia era declamar poesias...
Um pensamento livre de cada um:
“ganhar na megasena”
“ ser feliz com ele...”
“desejo que todos se amem mais, vivam intensamente cada momento...”
“resultado do que ingere, se transforma em hidrato de carbono, e dirige seu pensamento para algo que não foi ainda condicionado...”
“Tudo o que já tinha que existir, já existiu... Não há muito para existir...”
“não somos totalmente livres”
“ninguém prende o que você pensa”
“é bolinha de sabão...”
“se é condicionado, não é livre...”
“não sei...” “é mais do que eu sei tudo”
“são fantasias... estar apaixonado... fantasiar que está com alguém...”
“é liberdade, vivo minha liberdade...”
A falta de liberdade dos outros, me afeta.
Definições relativas – é pensamento livre!
A bolinha de sabão, é o nitrogênio mais leve que o mundo aqui de fora...
O corpo mental pensa independente do seu sentir
Quando deseja que todos sejam livres, isso é liberdade???
Só vivendo pra saber...
Não dá pra ter respostas na ponta da língua...
Querem o bem da sociedade por que isso afeta a eles
É o pensamento livre, de ser livre!
A liberdade de um, depende da liberdade de outros.
O prazer tem a ver com sentimentos
Não, não tem...
É sentimento, diferente de pensamento.
Pensamentos desejantes são diferentes de pensamentos mentais
Você não é um trem...
Não precisa de um trilho.
A criança está dentro, mas não se vive só ela.
Pensamento livre é do “ser” humano...
Há pensamentos diferentes...
Cada um pensa do seu jeito
Cada um respeita o que o outro pensa
Parar de pensar em respostas decoradas
E viver mais intensamente
É muito pensamento
É profundo...
Há de trabalhar a humildade de cada um.
Reconhecer quem você é.
Pensamos muita coisa, mas temos limitação para pensar e agir.
Falta humildade quando se pensa em liberdade.
Nós somos limitados!
Fazemos o que podemos,
Mas é pouco em relação ao mundo à volta
A criança interior, inocência, infância
Reporta à humildade
Um dia, a gente não sabia...
A gente precisa de um pouco de loucura, pra cortar a corda e ser livre...
Não! A gente precisa de sensatez e liberdade
O segredo está no universo, e quando se descobre ele, deixa de existir.
PENSE LIVRE!!!!!
O labirinto não nos mostra o caminhar,
Mas nos ensinam a caminhar
Por onde passamos,
Cenas repetidas em busca de saída...

Poesia elaborada como construção coletiva em OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, pelos usuários e profissionais do Ambulatório de Saúde Mental de Araxá, em 27/07/2010.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Araxá recebe R$30.000,00 para estruturação do CAPS II





:: Resultado da consulta:::
Município-UF:
ARAXA/MG

Entidade:
FUNDO MUNICIPAL DE SAUDE DE ARAXA

CNPJ:
12.046.773/0001-98

População:
85.713

IBGE:
310400





                             Bloco:
 GESTÃO DO SUS
Componente:
 IMPLANTAÇÃO DE AÇÕES E SERVIÇOS DE SAÚDE
Ação/Serviço/Estratégia:
 CAPS II - INCENTIVO DEST. AO CUSTEIO DOS CENTROS DE AT. PSICOSSOCIAL
Competência
Número da OB
Data OB
Banco OB
Agência OB
Conta OB
Valor líquido
Desconto
Valor Total
Obs.
Processo
Tipo Repasse
    Parcela    
Nº Proposta
04/2010
25/06/2010
104
000973
0066240060
30.000,00
,00
30.000,00
 - 
25000093685201031
MUNICIPAL
















TOTAL
30.000,00
0,00
30.000,00
-
-
-
-
-


Valor líquido
Desconto
Valor Total
TOTAL GERAL
30.000,00
0,00
30.000,00

Id
Programa
Valor
1
CAPS II - INCENTIVO DEST. AO CUSTEIO DOS CENTROS DE AT. PSICOSSOCIAL
30.000,00
TOTAL
30.000,00

Já está depositada na conta do Fundo Municipal de Saúde de Araxá, a verba de incentivo de R$30.000,00 (PARCELA ÚNICA) para o custeio do CAPS II em Araxá. Esta verba deverá ser empregada na estruturação do Centro de Atenção Psicossocial e já tem destinação certa, conforme Projeto enviado ao Ministério da Saúde. A partir da data do depósito efetuado (25/06/2010), o poder público municipal terá 3 meses para inaugurar o CAPS II. Caso contrário, deverá devolver aos cofres da União a verba de R$30.000,00. Após a sua inauguração, o CAPS deverá continuar se adequando conforme legislação vigente, para ter o direito de solicitar junto ao Ministério da Saúde o seu credenciamento, aguardando a  disponibilidade orçamentária da União, para receber mensalmente uma verba destinada ao seu funcionamento. Agora caberá à comunidade araxaense fiscalizar o cumprimento dessas etapas e cobrar do poder público o direito de ter acesso a serviços de saúde mental de qualidade. Esperamos que não aconteça como no passado recente, quando o poder público municipal de Araxá dispensou uma verba de R$15.000,00 conquistada pelo município junto ao Governo Estadual, também destinada a estruturação do CAPS II. Todas as informações contidas aqui podem ser averiguadas junto às Coordenações Estadual e Nacional de Saúde Mental. Estamos de olho!!!
 

domingo, 23 de maio de 2010

I CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESQUIZOANÁLISE E ESQUIZODRAMA

II ENCONTRO LATINOAMERICANO DE ESQUIZOANÁLISE
II ENCONTRO DE ESQUIZOANÁLISE

“POR UMA NOVA TERRA, POR UM POVO POR VIR”

UBERABA, 10, 11 E 12 DE SETEMBRO DE 2010

Clínica, devir e subjetivação: direito à diferença
Esquizodrama: atualização da realteriade
Redes rizomáticas de inventar o novo
Acolhimento: devir ternura.
Desintitucionalização e produção de vida
Reforma psiquiátrica e inclusão social: alegria e ética
Liberdade, direitos humanos e justiça social

INSTITUTO GREGORIO F BAREMBLITT DE MINAS GERAIS BH
FUNDAÇÃO GREGORIO F BAREMBLITT - UBERABA MG

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ouviu o Galo Cantar e Sabe Onde

...mas diz que é em outro terreiro!

O texto de Contardo Calligaris (encontrável em seu Blog, no endereço: http://contardocalligaris.blogspot.com/) a respeito do brutal assassinato de Glauco e Raoni contém importantes pontos de reflexão: qual é, efetivamente, a dimensão real de periculosidade que a condição da loucura comporta? O que significa ignorar isso, no suposto otimismo, apontado por Calligaris como aquilo “que nos leva aacreditar na possibilidade de transformações definitivas” [...] e que é “provavelmente, um efeito da ideia cristã de que não existe um pecado que não possa ser esquecido e perdoado se o penitente for sincero”. A leitura de seu texto também me suscitou a velha questão dessa espécie de benevolência que consiste em tornar “inadmissível internar um indivíduo perigoso na intenção de proteger a sociedade dos atos que ele poderia cometer”, e, indo mais longe, recoloca a questão da inimputabilidade e da irresponsabilidade civil do louco, que me parece exigir uma análise caso-a-caso, no mínimo.

São questões sérias, agudas, cruciais, e que devem ser trazidas ao debate público em uma sociedade democrática, como a nossa, que se consolida cada vez mais nesse estatuto.
No entanto, no mesmo espírito democrático que, quero crer, lastreia a iniciativa de Calligaris em trazer ao debate público as questões que o assassinato de Glauco e Raoni a seu ver coloca, quero expressar, de forma igualmente pública, os perigosos desdobramentos de um pensamento como o de Calligaris, sobretudo quanto à influência que pode ter na formação de uma opinião pública favorável às internações psiquiátricas. O problema que vejo nisso não é a defesa da internação psiquiátrica, que, concordemos com ela ou a deploremos, ela é, de resto, uma posição como qualquer outra, tão legítima quanto qualquer outra no debate democrático. O problema maior é fazer crer ao leitor que, de todas as medidas possíveis de tratamento, assistência, atenção, reabilitação, cuidado ou proteção àquele que sofre de transtornos mentais, a internação seria aquela que maior eficácia teria, no caso em questão, no impedimento do atos perigosos como o assassinato de Glauco e Raoni.
Senão, vejamos. Será que se internássemos todos os cidadãos que emitissem sinais de periculosidade (começando pelos que andam com cães pitbull pelas ruas, ou que se parecem, eles próprios, com esses cães pitbull), teríamos reduzida a estatística de assassinatos? Não me parece evidente. Mas certamente teríamos a maior taxa de internação e superlotação de manicômios do planeta. Os indivíduos “perigosos” deste tipo, os agressivos, impulsivos, que estrangulam namoradas que terminam o namoro com eles ou atiram filhos pela janela por acharem que já os mataram por atos precedentes, esses não são os verdadeiros loucos, os psicóticos sobre os quais incidem em geral (e cada vez menos, felizmente) as internações psiquiátricas.
Será que já nos detivemos suficientemente no fato clínico, evidência comprovada por qualquer profissional experiente da área da saúde mental, de que o louco que comete crime o faz no interior de uma história, um enredo, um delírio que tem uma estrutura discursiva, um texto, uma narrativa? [que não se entenda que estou com isso afirmando qualquer atenuante para o ato, mas sim situando-o no interior de uma estrutura que nos permite intervir, acessar, tratar a patologia do ato, digamos, que pode conter tanta violência quanto qualquer outro ato de qualquer outro cidadão não louco - a violência, a morte causada ou sofrida está para todos]. Este é exatamente o caso, aqui mais uma vez comprovado, de Cadu, o assassino de Glauco, em relação ao qual ele vinha entretendo uma complicada história. Ora, o que é que uma internação faz senão começar por cortar justamente os elos da história, os ganchos textuais, as referências do enredo e a própria narrativa, inclusive aquela que poderia comportar a morte ou o assassinato como seu ponto de confluência? Então a internação é precisamente o que retira os meios de acesso, tratamento e evitação do ato, por cortar o texto que lhe fornece o enredo. Se evita o ato agressivo, é simplesmente por evitar qualquer outro, por paralisar o movimento, o pensamento e a ação. Entende-se o que aqui se diz? A internação não é condenável por ser pouco humanitária, mas por ser burra mesmo, cientificamente falando, é uma asneira sem qualquer possibilidade de validação pela inteligência ou pela razão científicas: Se o ato eventualmente assassino de um doente mental requer, necessita de um delírio que o determine, cortar as vias de acesso e tratamento do delírio (internar) é um curiosíssimo método que consiste em privar-se justamente dos meios mesmos de chegar aos seus objetivos.
Pela via da internação, não estaríamos tratando nossos “perigosos” loucos, que estão longe de ser os mais perigosos cidadãos exatamente por força de sua narrativa delirante, que fornece sinais, alertas, pedidos de intervenção que impeçam seus atos, via de regra do modo tempestivo. A história da psiquiatria mundial já demonstrou suficientemente que a internação não é a forma mais eficaz de tratamento dos distúrbios psíquicos – muito pelo contrário -, e um psicanalista não poderia ignorar isso. Contardo Calligaris é um psicanalista.
É importante deixar aqui bem claro que, no importantíssimo processo histórico que atravessamos e que responde pelo nome de Reforma Psiquiátrica Brasileira, a internação não é um recurso execrável e inadmissível, como sugere Calligaris, em uma alusão que, embora anônima, deixa bem clara sua referência ao processo da luta anti-manicomial que o campo da Saúde Mental e as Políticas Públicas em vigor no Brasil sustentam, porque pactuadas junto à sociedade brasileira. A internação é um recurso legítimo, aplicável, indicável, necessário e em alguns casos indispensável, mas desde que articulada a uma rede de cuidado cuja lógica, pautada nas ações comunitárias, territoriais, intersetoriais – a sociedade toda precisa se envolver com a questão da loucura e dos seus "perigos" – não é a lógica da segregação, da exclusão, da internação como exílio social no próprio seio da sociedade. No caso de Cadu, uma internação certamente poderia ter sido bastante acertada e providencial. Mas esta internação estaria sendo acompanhada por equipes de saúde mental não hospitalares, e o delírio de Cadu, uma vez tratado, teria tomado outro curso, como em centenas de casos clínicos similares que teríamos a contar aqui e a fornecer como evidências científicas do que estamos afirmando, nos quais assassinatos, em geral de familiares e pessoas muito próximas do doente, determinados por “comandos mentais” deixaram de ocorrer pela intervenção das equipes de técnicos responsáveis pelo tratamento fora da internação.
Contra a crença inabalável em uma redenção inexorável – cujos equívocos e perigos Calligaris corretamente assinala – este autor poderia fazer inúmeros e outros questionamentos, envolvendo diversos procedimentos e dispositivos, ao invés de simplesmente invocar a internação e lamentar que ela não tenha sido praticada. Poderia interrogar que medidas de atenção e tratamento o assassino, Cadu, estaria recebendo de equipes de saúde mental do território (Osasco); Poderia indagar se essas equipes, bem como as do PSF (Programa de Saúde da Família) local colocaram-se ao alcance da comunidade do Santo Daime (Céu de Maria) que Cadu freqüentava e onde já tinha dado inúmeros sinais de seu transtorno (a ponto de estar proibido de tomar o chá alucinógeno dos rituais); Poderia também indagar por que essas equipes não estavam intervindo junto a Cadu, levando-o ao Centro de Atenção Psicossocial mais próximo, ou que espécie de rede social protetiva ou preventiva poderia ter detectado o perigo iminente de um ato com o dele e assim o tivesse podido evitar, fazendo justamente o trabalho que precisava ser feito com respeito ao delírio e às histórias que circundavam o ato assassino final, trabalho que é justamente o que as internações não fazem. Se Calligaris fizesse essas perguntas, estaria engrossando as fileiras de milhões de brasileiros que vêm, há quase trinta anos, lutando de forma árdua e exitosa contra as truculentas, ineficazes e mercenárias (com o dinheiro público) práticas manicomiais no Brasil.
Mas Calligaris preferiu, ao analisar a relação entre a doença mental e a violência que matou Glauco e Raoni, iludir a si mesmo e à opinião pública quanto aos poderes enganosos da internação como forma de enfrentamento dessas eventuais associações entre loucura e violência.
É uma pena.

Abraços a todos, em particular a Beatriz, viúva de Glauco, seus filhos, a namorada de Raoni, e aos companheiros da luta anti-manicomial, que é também a luta anti-violência, anti-assassinatos de todas as espécies.
Luciano Elia, psicanalista, é um desses companheiros.

Texto enviado pela Coordenação Estadual de Saúde Mental MG.

quarta-feira, 31 de março de 2010

COLETI-VIVENDO...

Secos & Molhados, começam
Rabiscos e formas se unem
Cores, som e intuição
Mãos que pintam e criam
Todos rodam
Roda o desenho, a vida
Roda o mundo.
Uma mão começa, outra termina.
Sem pé, nem cabeça
Arte é assim...
Sol, chuva, casa...
Proteção
Nome...
O que é meu,
O que é dele?
Sem pé, sem cabeça
A vida e o amor
Criação de Deus, natureza
O humano no mundo
Com-passo, e não sem passo...
Esquadro, tudo desenha...
Projeto de vida
Mas falta água pra flor.
Porém, na era do dragão,
Há força e poder divino.
Só se conhece o belo, quando já conhece o feio.
Yin-Yang, equilíbrio
Os contrários, e o movimento de vida.
A construção do amor
O anjo, a espada, as estrelas
Pirâmides do conhecimento
Da bandeira de Minas,
Liberdade mineira
Casa de cupim,
Comunidade-coletividade
Sociedade organizada
Um sonho de um homem forte
Que constrói pontes
Ponte de vida, troca e arte
Ponte entre o mundo de dentro e o de fora
A formiga sobrevivente tem família, luta.
A serpente é ligeira e vive sob a lua.
A perda compartilhada,
Vida reencontrada.
Nascimento sempre presente
Na lua, no sol,
Natureza que é renovada.
Um mundo de dois sóis
É um mundo de ilusões...
Estrelas no céu
E a de Davi na terra,
Da natividade,
Da vida,
Da renovação contínua
Da liberdade.

OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES,
24/03/10


O presente texto foi elaborado em conclusão aos trabalhos na OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, em 24/03/10, por usuários da Saúde Mental de Araxá e profissionais.