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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESQUIZOANÁLISE E PRODUÇÃO DE VIDA - JORGE BICHUETTI





Foucault afirmou que o próximo século seria deleuzeano.
De fato, nem sempre o entendemos: a esquizoanálise se tornaria um pensamento dominante ; ou o mundo se revolucionaria , consubstanciando no seu dia-a-dia o ideário libertário da esquizoanálise.
Neste sentido, a profecia foucaultiana não se cumpriu...
Todavia, nos que existimos mergulhados neste de mundo de exploração, dominação e mistificação, encontramos no pensamento de Foucault um campo de esperança e resistência, sonho e vida nova.
A esquizoanálise nunca se pretendeu molarizar-se e encastelar nos tronos académicos ou políticos, num apogeu de triunfalismo e poder.
Ela se constitui num processo ininterrupto de invenção da invenção.
E se destina, fundamentalmente, a deter - no homem e no socius, o fascismo; ela surgiu para criar uma vida não-fascista.
Assim, brilha e faisca, é uma centelha da aurora, um voo livre nos páramos do infinito, quando delimita seu chão: o direito à diferença. Um chão florido e multicolorido, com canções e poesia, del´rios e magia...
Visa morte do ego...
A institucionalização do ego da subjetividade capitalista é uma normatização de modo de ser e existir marcado:
- pela unidade, totalização e permanência. É estabilidade e inflexibilidade...
- narcisismo - individualismo, egoísmo e egocentrismo.
- repetitivo, tende a cristalizar o mesmo;
- edípico: triangular, possessivo e excludente.
,,, Um ego da falta e castrado, fadado à angústia, e arredio ao novo.
A esquizoanálise nos percebe como movidos pelo excesso, pela produção desejante: singularidade, multiplicidade e devires.
Somos metamorfoseantes ( Orlandi)...
Dai, sua função é alisar os instituídos e gerar espaços lisos -instuintes onde possam florir o novo, o inusitado.... Onde a impermanência floresça e frutifique nos possibilitando uma individuação que seja no redemoinho da impermanência a invenção criativa de " uma nova terra, de um povo por-vir".
Para além, do reprimido que volta, ela nos permite bifurcar e explorar novos caminhos e novos eus.
Podemos, assim, já mergulhar no universo esquizoanalítico e ser e existir na magia da liberdade, nos encantos da ternura e na potência da solidariedade.
Uma vida, n revoluções...
N revoluções, por uma vida nova e disruptiva: vontade de potência que afirma nossas posições de desejos no território dos bons encontros sob a égide das paixões alegres.
Deleuzeemos, então, num devir fénix...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

NOVAS INDIVIDUAÇÕES E UMA NOVA SAÚDE - Emerson Merhy

Fragmentos do II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESQUIZOANÁLISE E ESQUIZODRAMA - Uberaba
No mundo hoje, há mudanças de dispositivos subjetivos existenciais.Hoje não temos facilidade em dizer em qual momento a produção de capital explora e em qual a reprodução, força o trabalhador se recompor para ser explorado.
Estar implicado no modo de viver opera-se conecções de encontros. Cada lugar é o lugar da grande política.
O campo da saúde, é um campo da prática de produção de cuidado, que liga-se a produção de biopoderes, biopolítica.
A indústria farmacêutica invade o modo de existir do indivíduo, trazendo uma idéia perversa de que ter saúde é um risco de ser doente. “Tome o medicamento para não ter o que você não tem.” Hoje alimento não é mais alimento, é remédio. Você está em risco por que tem saúde... È o processo de subjetivação coletiva transformado em processos vitais. O próprio processo de investimento é desinvestido, desterritorializado. A medicina tem tendência a ser tecnóloga: o especialismo.
O interdisciplinar é paradoxal, prefere o trabalho ENTRE.
A vida em sua produção é resistência, precisamos sustentar a produção de vida. Temos que compor cotidianos de vida, estes são lugares de construção de resistência, mesmo que ninguém saiba. A capacidade que temos de vida, é o que faz-nos sobreviver além.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Possibilidades da comunicação não violenta - Jonas Melman


Em nossos tempos, o aumento da violência se transformou em um problema central para a humanidade. A epidemia de violência é um fenômeno mundial, e prolifera em todos os segmentos sociais. As forças capazes de gerar violência habitam a subjetividade de cada um de nós. Em certas circunstâncias, ninguém está isento de agir com violência.
Diariamente, a mídia expõe as mazelas de nosso mundo. Devemos lembrar que uma parte significativa dessa violência é silenciosa e ocorre no interior de nossos lares, mostrando que ainda reconhecemos que a violência é um instrumento legítimo para superação dos conflitos familiares. Acreditamos e legitimamos a violência, atestando nossa incapacidade de encontrar formas saudáveis para superar os impasses. O poder do mais forte prevalece. Os mais vulneráveis costumam ser as vítimas: crianças, adolescentes, mulheres e idosos.
Há pelo menos cinco mil anos, as estruturas sociais vigentes que norteiam nossas relações econômicas, de família, educação, justiça, convivência com a natureza, cultura e comunhão espiritual estão fundadas numa lógica de dominação.
Como compreender a violência familiar? Como ajudar as famílias que deveriam amar e cuidar do bem-estar de todos os integrantes, mas acabam produzindo tanto sofrimento?
A fixação dessa lógica da dominação se inicia precocemente. Culturas mais violentas tendem a usar a punição e a recompensa como método para a aprendizagem da obediência à ordem estabelecida.
Somos permanentemente avaliados, criticados e julgados pelos responsáveis pela tarefa pedagógica. A noção do certo e do errado, do aceitável e do inaceitável é transmitida sem reflexão. As estruturas sociais lançam mão de sistemas de pensamento e de modalidades de comunicação que se colocam a serviço desse processo de instituir a dominação como modelo hegemônico de relação entre as pessoas. O elogio e a crítica constituem instrumentos essenciais para reforçar certos comportamentos e atitudes.
Nossa mente foi formatada para traduzir o que chamamos de realidade utilizando o julgamento e a crítica. Julgamos uns aos outros sem muita consciência. Num ambiente familiar crítico e exigente, as pessoas não se sentem seguras para expressar seus sentimentos. O medo ocupa um lugar central nos processos educativos voltados à obediência. Pessoas inseguras precisam de proteção, e são facilmente manipuladas. Aprendemos a temer a autoridade, no lugar de respeitá-la.
O psicólogo Marshall Rosemberg desenvolveu a “Comunicação Não Violenta” (CNV) como uma metodologia centrada em ouvir e falar com atenção, respeito, sinceridade e empatia, estimulando um desejo mútuo de dar e receber de forma plena. A CNV procura se afastar do funcionamento mental baseado em críticas e julgamentos, atuando de forma a estimular a compreensão e o respeito mútuo.
O autor sugere que precisamos aprender a nos comunicar expressando nossas necessidades e sentimentos. Uma linguagem projetada para servir à vida e não às autoridades, que contribua para fomentar conexões voltadas ao bem-estar de todos. As necessidades humanas correspondem à vida se manifestando em nós. Os seres humanos compartilham as mesmas necessidades: segurança material e emocional, amor, empatia, diversão, autonomia e busca de um sentido de vida.
Necessidades nunca estão em conflito. As estratégias que escolhemos para alcançar as necessidades é que podem gerar conflitos. Confundimos, com freqüência, necessidades e estratégias. Ter vontade de assistir TV, ir ao cinema ou andar de bicicleta são estratégias para se divertir. Necessidades não fazem alusão a pessoas, ações ou coisas específicas.
Quando contribuímos para atender às necessidades reais de outras pessoas, nos tornamos pessoas mais felizes. Necessidades não atendidas geram mal-estar, raiva e frustração.
É essencial acolher o sofrimento dos familiares para que eles possam encontrar uma maneira mais pacífica de se relacionar. Agressores também precisam de ajuda e de muita empatia para deixar de ser agressores. Segundo os princípios da Cultura da Paz e da CNV, a violência pode ser entendida como expressão trágica da condição humana. Sofrimento, desigualdade, injustiça, desejo de poder sobre o outro geram violência. O ato violento pode ser compreendido como um pedido de ajuda de um ser humano que não consegue expressar a si mesmo de forma mais saudável.
Precisamos aceitar o desafio de traduzir todas as críticas e juízos de valor numa linguagem que revele as necessidades não atendidas. Uma abertura para o diálogo, para ouvir o outro como um legítimo outro, com respeito e apreço. Quando necessidades e sentimentos são compartilhados de forma clara, eles aproximam as pessoas e os grupos em conflito.
Jonas Melman, psiquiatra e psicoterapeuta, mestre pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, é assessor da Área Técnica de Cultura de Paz da Secretaria Municipal da Saúde de SP. E-mail: melman@terra.com.br

http://www.unesp.br/aci/jornal/220/suplec.php

Saúde Mental, Família e Violência – Jonas Melman

Fragmentos do II CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESQUIZOANÁLISE E ESQUIZODRAMA - Uberaba
Quando se pensa em mudar a psiquiatria, fala-se em mudar a função e o objeto. Em um novo modelo de cuidado, exige-se a proposta de olhar profissionalmente os familiares. É um cuidado de uma clínica ampliada para o ambiente externo.
É importante repensar também o fenômeno da violência na Saúde Mental: a violência relacionada à doença mental, a saúde mental relacionada à não-violência, de usuários para com familiares, de familiares para com usuários, de usuários para com profissionais, de profissionais para com usuários.
Os rituais da humanidade legitimam a violência. Ela fere a dignidade humana e faz sofrer. Ela fere quem sofre e quem exerce a violência. Produz transtornos mentais e sofrimento mental.
Aceitar a loucura e a violência é parte do processo de aceitar a vida em sua totalidade.
Os profissionais sentem-se inseguros para cuidar da família e pacientes. O cuidado é mais dirigido aos pacientes que à família. Cuidar de pessoas em situação de violência significa também cuidar de familiares.
Resiliência: teoria que se interessa pelas mudanças das relações afetivas e culturais que podem modificar o funcionamento do ser humano. Corresponde á potência de a pessoa almejar uma virada na vida, uma metamorfose em direção a um projeto de felicidade.
Política pública consistente + relação de cuidado e confiança = movimento de busca de uma nova identidade das pessoas – o seu lugar no mundo.

domingo, 16 de maio de 2010

Sem Receitas Para Pais e Educadores - Lançamento do Livro

Aconteceu ontem, dia 16 de maio, na Bienal do Livro de Minas, em Belo Horizonte, o lançamento do livro "Sem Receitas Para Pais e Educadores," da amiga e companheira Angela Maria Amâncio de Ávila. Há previsão para que o lançamento também aconteça em São Paulo, Uberlândia e Araxá. Este é o segundo livro escrito por ela. O primeiro foi Socorro Doutor: Atrás da Barriga Tem Gente!, que em breve será relançado  devidamente atualizado. Ambos são contribuições valiosas, resultados de anos de muita dedicação aos estudos, à prática profissional e sobretudo do comprometimento e do amor a essa causa. Somos privilegiados por tê-la ao nosso lado, sempre compartilhando generosamente o seu conhecimento com todos, e por onde ela passa. Nossas felicitações!
Abraço,
Samara.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Política e Subjetividade

Resenha do livro Freud e o Problema do Poder,
de León Rozitchner, SP, Editora Escuta, 1989, 189 páginas.

A relação do indivíduo com o mundo tem sido ao longo do tempo pensada por diferentes correntes teóricas. Os conceitos variam, é claro, não só dependendo do lugar teórico-político de onde falam as correntes, como também das diferentes implicações que têm com o objeto que produzem.

O freudomarxismo, através do filósofo (com prática clínica) Rozitchner, apresenta-nos a tese sobre a produção do sujeito e sua isomorfia com a estrutura social, na série de conferências proferidas no México em 1981, publicadas em Freud e o Problema do Poder (Ed. Escuta).

Aproximadamente dez anos antes, o autor escreveu Freud y los limites del individualismo burgués (Siglo Veintiuno), um dos mais significativos trabalhos realizados pelo movimento freudomarxista. Ao longo de 500 páginas, os artigos Mal Estar na Civilização e Psicologia das Massas e Análise do Ego, ambos componentes da chamada obra social de Freud, dão suporte às idéias do autor. Estas consistem em afirmar que "cada sujeito é também núcleo de verdade histórica" e que "o sistema de produção também é produtor do aparelho psíquico". Considera-se, nesta obra, que a teoria e a prática psicanalítica estariam entranhadas pela subjetividade "burguesa" e que uma leitura marxista de Freud necessariamente provocaria novas abordagens. A Psicanálise, assim, poderia evidenciar as estruturas objetivas do sistema de produção conceituadas por Marx, presentes como determinações na subjetividade dos sujeitos. Tais idéias serão expostas com clareza e síntese nas conferências ora editadas.

O freudomarxismo não teve no Brasil a repercussão que obteve na Argentina e em alguns outros países. Reich, Bernfeld, Fenichel e Fromm são alguns dos nomes associados a este movimento, embora a idéia de uma aproximação de psicanálise e marxismo tenha sido realizada de maneiras substancialmente distintas: desde uma utilização meramente formal dos discursos até a tentativa de uma construção teórico-prática. No campo da filosofia destacam-se Marcuse, Althusser e Sartre, que ressaltam tal articulação como importante para a compreensão dos processos de subjetivação.

Rozitchner estuda a problemática da repercussão na subjetividade das chamadas condições objetivas, e o que significam as condições subjetivas no desenvolvimento dos processos coletivos. Situa o problema do poder, portanto, na intrínseca relação co-determinante do indivíduo e do coletivo. Aponta que, em geral, estes dois pólos estiveram separados na análise das diferentes perspectivas teórico-políticas ou, quando muito, pensadas numa relação que estabeleceria pontos de contato mas garantiria suas formas próprias de produção.

O autor investiga primeiramente o processo de interiorização do poder na formação do sujeito. Sustenta a tese de que Édipo será a primeira "forma" subjetiva, e que só podemos entendê-lo através do Édipo coletivo/histórico. Encontra em Psicologia das Massas e Análise do Ego a evidência do poder individual debatendo-se na abertura para o poder coletivo. O drama do enfrentamento da criança com as normas surge sob a forma de um duelo; só a partir da negação do próprio desejo, poderá incluir-se na cultura. A "solução" do complexo de Édipo organiza uma consciência que não tem consciência de sua origem, posto que a ordem social oculta no sujeito o lugar onde se implanta. Esta "saída" infantil – saída em falso – resultaria em submissão à lei e interiorização de um poder despótico, que persistiria como forma matriz da organização individual dentro das instituições. Rozitchner diz que Freud "está fazendo uma psicologia como ciência histórica": "A história, em seu sentido amplo, começa em uma rebelião coletiva pela liberação dos submetidos". O autor retoma, também, a noção de riqueza para Marx, entendida como a produção de novas capacidades, poderes de produção e prazer. Esta noção seria desvirtuada na suposta universalidade objetiva de intercâmbio de mercadorias. O fundamento produtor dos indivíduos traria o sentido de cooperação, princípio também da ordem histórica. O conteúdo e as formas organizadoras do aparelho psíquico dependeriam da forma social que o produz. A recuperação deste poder expropriado, assim, seria fundamental para transformar qualquer processo histórico, através do retorno às fontes do poder social, onde o descobrimento do coletivo/individual, necessariamente, suscitaria a transformação pessoal dos sujeitos.

A formação de representações que constituem subjetivamente o campo da consciência e da subjetividade, diz Rozitchner, concede a possibilidade de nos referirmos a ela distanciando-nos e ocultando-nos da sua origem. Sustenta-se, assim, verdades construídas/produzidas, naturalizadas. Lembrando que a mercadoria, enquanto valor, é fetiche, posto que parece que o contém em si mesma, reafirma que é o poder despótico, seu lugar simbólico e o campo do imaginário que permitem sua instalação, sendo absolutamente fundamental tal desvendamento.

O autor aborda o tema, ainda, utilizando sua experiência no processo político argentino, concluindo que o "psicanalista não pode ser psicanalista e político, mas necessariamente um psicanalista-político".

Poderíamos considerar que a proposta de Rozitchner não tenta integrar os dois saberes em que se apóia, pelo menos no sentido de uma descaracterização epistemológica. Por outro lado, suas postulações "isomórficas" indicam uma busca de equivalência na co-determinação do psiquismo e do social.

Ao trabalhar a concepção de poder, Rozitchner fará algumas referências à obra de Foucault. Entretanto, se em alguns momentos trabalha com a idéia de corpo submetido e disciplinado onde a dominação se inscreve (referência à noção de poder disseminado), em outros, mantém a análise das relações de poder como estando localizada no aparelho de estado, imposta ao coletivo via identificações/ideologias. Ele atribui, então, poder "macro" ao coletivo e poder "micro" ao individual. Cabe esclarecer que a noção de micropoder em Foucault não relaciona poder com lugar.

Outras leituras podem sugerir diferentes análises sobre a questão da subjetividade. Guattari, por exemplo, considera que a psicanálise, mantendo a concepção de neutralidade, acaba por consolidar certas produções de subjetividade. Mais, que certas elaborações psicanalíticas seriam um modo de pensar uma das formações do inconsciente, conceito que a própria psicanálise produziu, mas jamais comporiam uma teoria geral sobre o inconsciente. Ao invés de tomar o conceito de ideologia, o substitui pela noção de produção de subjetividade, porque a questão para este autor não é apenas a de uma transmissão de significações por meio de enunciados, nem a adoção pura e simples de modelos de identidade ou identificações. Tratar-se-ia de sistemas de conexão direta entre diversas produções e a instância psíquica. Nesse sentido, tanto os marxistas como os psicanalistas são criticados, posto que as mutações da subjetividade não ocorreriam somente no registro ideológico ou edípico. Nem produção econômica, nem economia libidinal: Guattari enuncia a economia coletiva do desejo, atravessado por uma multiplicidade de produções que se revelariam em cada acontecimento, singularmente.

Certas questões ainda se colocam diante do freudomarxismo. Uma integração teórica, certamente, conduziria à descaracterização das teorias envolvidas. O que não é necessariamente um ultraje, ainda mais se a construção teórica que se segue é interessante e útil. Preservá-las, conservando suas conceituações, acabaria por manter lacunas, segundo o próprio freudomarxismo. Articulá-las, como pretende o autor, coloca um grave problema de teorização, ali onde a prática exige maior precisão; o que poderia explicar, sem necessariamente justificar, o abandono do freudomarxismo por parte de psicanalista que se afirmam marxista.

A noção de verdade, a perspectiva essencialista, os marcos interpretativos positivistas constituem parte de uma problemática complexa para aqueles que ressaltam as contribuições significativas do movimento freudomarxista.

A contribuição central deste último foi ter suscitado uma análise das instituições burguesas, do fascismo, e ter questionado a prática psicológica apolítica. Trouxe influências ainda, para que a partir de "maio de 68" não se pudesse ignorar com facilidade a política do desejo.

A importância da ordem histórico-social e sua relação com o inconsciente, ressaltada pelo freudomarxismo, a noção de subjetividade e a de transversalidade em Guattari, a redefinição de poder em Foucault, e ainda outras idéias, como os conceitos de implicação advindos da socio-análise e o de imaginário social em Castoriadis, apontam para uma "nova" clínica: a clínica onde as forças presentes no inconsciente constituem necessariamente um campo de análise mais amplo do que o da análise do inconsciente edípico. Uma teoria que ainda está para ser escrita, uma prática com muitas indagações.

Maria Beatriz de Sá Leitão
Psicanalista e Analista Institucional.
Co-autora dos livros:
Práticas Grupais (Campus, 19) e Grupos:
Teoria e Técnica (Graal, 19).

Regina D. Benevides de Barros
Professora do Departamento de Psicologia da UFF
e Analista Institucional.
Co-autora do livro: Análise Institucional no Brasil
(Ed. Espaço e Tempo).



segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Carta aos Donos do Mundo

Meus Senhores:

Dirijo-me à Vossas Excelências para falar do Haiti.
Ia escrever uma crônica intitulada - "Äi de ti, Haiti" , mas isto não passa de um belo jogo de palavras e não quero fazer uma nova jeremiada. Venho, portanto, Senhores Donos do Mundo, com uma proposta concreta. Por isto, poderia intitular este texto de "Como salvar o Haiti". Pretensioso, não? Claro que eu poderia me dirigir especificamente ao Eike Batista da Vale do Rio Doce, que está fazendo e acontecendo, ajudando até a Madona. Aliás, ele, ou qualquer milionário sozinho poderia salvar o Haiti. Afinal, o que é um país com pouco mais de 27 mil km2, com apenas 9 milhões de pessoas? Não passa de uma grande cidade brasileira ou mexicana! Será que não conseguimos salvar sequer uma cidade ou uma ilha?

Mas estou propondo algo menos personalista. Se descobrirmos o modo de salvar o Haiti, vocês hão de concordar, estaremos descobrindo como salvar este mundo. É sério. E digo logo: ou salvamos o Haiti, ou perecemos todos.
Senhores Donos do Mundo: vamos transformar o Haiti, que tem sido um território de desgraças num laboratório da vida. E ampliando algo que disse antes, reafirmo: se não conseguirmos salvar o Haiti, näo conseguiremos salvar a África. Se não conseguirmos salvar o Haiti e/ou a África não conseguiremos salvar o mundo.
Vou mais longe: não podemos continuar erguendo brindes no convés do Titanic. O navio já se chocou com o iceberg e começa a vazar água na casa de máquinas. Não é hora de disputar quem vai fazer a última ceia na mesa do comandante.
Ou salvamos o Haiti ou naufragamos todos. Afinal, é apenas um pedacinho de país. E se não conseguimos salvar essa coisinhazinha miúda lá no Caribe, então, Senhores, é melhor decretar a falência do ser humano. tocar logo fogo na Amazônia e degelar nossas últimas esperanças.

Meu caro operário Lula: o Senhor é hoje um dos ""donos do mundo" como reconhece a imprensa internacional. Pois convença os seus colegas que não basta aquela minguada tropa da ONU, dirigida heróicamente pelo Exército Brasileiro. Não basta um socorro de emergência. Vamos fazer um projeto a médio e longo prazo. Urge fazer, em escala mundial, um PAC (Plano de Ação Continuada) e uma UPP ( Unidade da Polícia Pacificadora), para devolver aos haitianos o que o mundo lhes roubou sistematicamente.
Comecemos pelos grandes devedores históricos. Ora, a Espanha, a França e os Estados Unidos tëm nisto uma responsabilidade incomensurável. A Espanha porque foi a primeira exploradora do país, a França napoleônica porque espoliou a colônia, prendeu e matou seu lider Henri Christophe e os USA por ter ocupado (para nada) com seus "marines" o Haiti, por mais de 20 anos.
Obama, você que é preto, descendente de escravos, viveu na África e chegou à presidência dos Estados Unidos, vai nessa, junte-se ao "Cara" aqui do Brasil e faça história.
Pessoas de coragem e de caráter como Zilda Arns, que lá sucumbiu tragicamente tentando tenazmente melhorar a vida dos haitianos, podem fazer diferença. Mas a questão ali e em outras partes não pode ser resolvida mitigando uma ou outra necessidade. Afinal, para que serve a globalização? Só para enriquecer os ricos?
Volto àquela metáfora marítima tão verdadeira quanto pedagógica: o Haiti assemelha-se a uma pequena embarcação à deriva no mar da história. Diante do Titanic, é quase nada, não passa de canoinha, de um piroga.
Se não conseguirmos salvar essa canoinha é melhor desistir de salvar o Titanic.

(*) Estado de Minas 18.01.2010.
Affonso Romano de Sant'Anna

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Crack: Como Lidar Com este Grave Problema

Breve panorama do crack

O panorama mundial da difusão do uso do cloridrato de cocaína (pó) por aspiração intranasal esteve associado, a partir da década de 60, à falta de algumas drogas no mercado, como a anfetamina e a maconha, devido às ações repressivas. Contudo, o alto preço do produto levou usuários de drogas à descoberta de outras formas de uso com efeitos mais intensos, apesar de menor duração. Desse cenário, no início de 1980, aparecem novas drogas obtidas a partir da mistura de cloridrato de cocaína com ingredientes cada vez mais incertos e tóxicos. Tempos depois, surge o uso do crack, outra forma fumável de cocaína, disseminando-se no Brasil, oficialmente a partir de 1989, alastrando-se atualmente, em vários segmentos sociais de gênero, sexo, idade e classe social.

Na produção de crack não há o processo de purificação final. O cloridrato de cocaína é dissolvido em água e adicionado em bicarbonato de sódio. Essa mistura é aquecida e, quando seca, adquire a forma de pedras duras e fumáveis. Além dos alcalóides de cocaína e bicarbonato de sódio, essas pedras contêm as sobras de todos os ingredientes que já haviam sido adicionados anteriormente durante o refino da cocaína. As pedras de crack são vendidas já prontas para serem fumadas. Sua composição conta com uma quantidade imprecisa de cocaína, suficiente para que possa produzir efeitos fortes e intensos. Além disso, para obter a produção final do crack são misturadas à cocaína diversas substâncias tóxicas como gasolina, querosene e até água de bateria.

O uso disseminado do crack no mundo das drogas está relacionado a vários fatores que levaram a uma grave transformação, tanto na oferta quanto na procura. De um lado, o controle mundial repressivo sobre os insumos químicos necessários a sua produção – como éter e acetona – leva os produtores a baratear cada vez mais sua fabricação, com a utilização indiscriminada de outros ingredientes altamente impuros. Quanto mais barata sua produção, mais rentável é sua venda. Por outro lado, o crack representa para a população usuária de drogas um tipo de cocaína acessível, pois vendido em pequenas unidades baratas, oferece efeitos rápidos e intensos. Entretanto, a desejada intoxicação cocaínica proporcionada pelo crack provoca efeitos de pouca duração, o que leva o usuário a fumar imediatamente outra pedra. Esse ciclo ininterrupto de uso potencializa os prejuízos à saúde física, as possibilidades de dependência e os danos sociais. A inovação no mercado das drogas com a entrada do crack atraiu pequenos traficantes, agravou ainda mais a situação, com o aumento incontrolável de produções caseiras, se diferenciando conforme a região do país.

À cocaína é misturada uma variedade incerta de reagentes químicos em sua preparação. O desconhecimento quanto a sua composição pode dificultar, muitas vezes, as intervenções emergenciais de cuidados à saúde nos casos de intoxicação aguda sofrida por alguns usuários. Tais condições, porém, não impossibilitam o desenvolvimento de ações voltadas à saúde e ao bem-estar social da referida população

Formas de uso e seus efeitos

O crack é fumado por ser uma forma mais rápida (e barata) de a droga chegar ao cérebro e produzir seus efeitos. A pedra é quebrada e fumada de diversas maneiras e em diferentes recipientes: enrolada no cigarro de tabaco ou misturada na maconha – forma que parece amenizar psiquicamente os efeitos maléficos da droga, como o sentimento de perseguição, a agitação motora e posteriormente a depressão. É também fumado em cachimbos improvisados feitos em tubos de PVC ou em latas de alumínio muitas vezes coletados na rua ou no lixo, apresentando possibilidades de contaminação infecciosa. O uso de latas favorece a aspiração de grande quantidade de fumaça pelo bocal, promovendo intoxicação pulmonar muito intensa.

São vários os tipos de danos causados pelo uso de crack. Além dos problemas respiratórios pela inspiração de partículas sólidas, sua ação estimulante leva à perda de apetite, falta de sono e agitação motora e, a dificuldade de ingestão de alimentos pode levar à desnutrição, desidratação e gastrite. Podem ser ainda observados sintomas físicos como rachadura nos lábios pela falta de ingestão de água e de salivação, cortes e queimaduras nos dedos das mãos e às vezes no nariz, provocados pelo ato de quebrar e acender a pedra, além de ficar o usuário mais exposto ao risco social e de doenças.





Gestores de saúde mental relatam aumento no consumo de crack em regiões que não apresentavam consumo significativo da droga, em especial no nordeste e nas cidades fora dos grandes centros urbanos. O aumento parece estar relacionado com o baixo custo e as características dos efeitos procurados, embora sejam necessários estudos e pesquisa sobre a influência desses ou outros fatores.

Atenção integral em saúde e saúde mental aos usuários de crack

Como todo uso de drogas está associado a fatores biopsicossociais, o consumo de crack não é diferente. Além dos problemas físicos já descritos, há os de ordem psicológica, social e legal. Ocorrem graves perdas nos vínculos familiares, nos espaços relacionais, nos estudos e no trabalho, bem como a troca de sexo por drogas e, ainda, podendo chegar à realização de pequenos delitos para a aquisição da droga. Há controvérsia se tais condutas socialmente desaprovadas têm relação com o estado de “fissura” para usar ou se resulta da própria intoxicação. A unanimidade é que o usuário desemboca numa grave e complexa exclusão social.

As abordagens ao usuário de crack exigem criatividade, paciência e respeito aos seus direitos, enquanto cidadão, para superar seu estado de vulnerabilidade, riscos, estigma e marginalização. Estratégias preventivas podem ser levantadas não somente entre esse novo grupo, como também dirigidas àqueles usuários que, por algum motivo, ainda não se aventuraram nesse tipo de droga.

O atendimento ao dependente de crack deve considerar alguns importantes critérios:

1. O usuário que não procura tratamento: a ele devem ser dirigidas estratégias de cuidados à saúde, de redução de danos e de riscos sociais e à saúde. As ações devem ser oferecidas e articuladas por uma rede pública de serviços de saúde e de ações sociais e devem ser feitas por equipes itinerantes, como os consultórios de rua, que busquem ativamente ampliar o acesso aos cuidados em saúde e em saúde mental destes usuários. A perspectiva dessa abordagem objetiva os cuidados da saúde como também as possibilidades de inserção social.

2. A porta de entrada na rede de atenção em saúde deve ser a Estratégia de Saúde Família e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Estes serviços especializados devem ser os organizadores das demandas de saúde mental no território. Os CAPS devem dar apoio especializado às ESF, fazer articulações intersetoriais (educação, assistência social, justiça, cultura, entre outros) e encaminhar e acompanhar os usuários à internação em hospitais gerais, quando necessário.

3. Quando o usuário acessa as equipes de saúde e de saúde mental, é necessária uma avaliação clínica das suas condições de saúde física e mental, para a definição das intervenções terapêuticas que devem ser desenvolvidas. É importante que se faça uma avaliação de risco pelas equipes de saúde para se definir se é necessária ou não a internação.

4. A internação deve ser de curta duração, em hospital geral da rede pública, com vistas à desintoxicação associada aos cuidados emergenciais das complicações orgânicas e/ou à presença de algum tipo de co-morbidade desenvolvida com o uso. É concebível e muito comum que usuários de crack, ainda que num padrão de uso preocupante, resistam à internação e optem pela desintoxicação e cuidados clínicos em regime aberto, acompanhado nos CAPSad por uma equipe interdisciplinar, nos níveis de atendimento intensivo, semi-intensivo e até o não intensivo. Nesse caso, a boa evolução clínica, psíquica e social dependerá da articulação inter e intrasetorial das redes de apoio, inclusive e se possível, com mobilização familiar.

5. A decisão pela internação deve ser compreendida como parte do tratamento, atrelada a um projeto terapêutico individual e, assim como a alta hospitalar e o pós-alta, deve ser de natureza interdisciplinar. Intervenções e procedimentos isolados mostram-se ineficazes, com pouca adesão e curta duração, além de favorecer o descrédito e desalento da família e mais estigma ao usuário.

Estratégias de intervenção e cuidados da rede de saúde:

    1. Avaliação interdisciplinar para cuidados clínicos (e psiquiátricos, se necessário)
    2. Construção de Projeto Terapêutico Individual, articulado inter e intrasetorialmente
    3. Atenção básica (via ESF e NASF, com participação de profissionais de AD)
    4. CAPSad – acolhimento nos níveis intensivo, semi-intensivo até não intensivo
    5. Leitos em hospital geral
    6. Consultórios de rua, casas de passagem
    7. Estratégias de redução de danos
    8. Articulação com outras Políticas Públicas: Ação Social, Educação, Trabalho, Justiça, Esporte, Direitos Humanos, Moradia.

Referências bibliográficas de consulta:
1. Domanico, A. & MacRae, E. Estratégias de Redução de Danos entre Usuários de Crack. In: Silveira, D. X. & Moreira, F. G. Panorama Atual de Drogas e Dependências. São Paulo: Ed. Atheneu, 2006.
2. Silveira, DX, Labigalini E. e Rodrigues, LR Redução de danos no uso de maconha por dependentes de crack. In: SOS crack prevenção e tratamento. Governo do Estado de São Paulo, 1998.
3. Andrade, AG, Leite, MC e col. Cocaína e crack: dos fundamentos ao tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.
4. Governo de São Paulo. SOS crack: prevenção e tratamento, diretrizes e resumos de trabalhos, 1999.
5. Silva, SL. Mulheres da luz: uma etnografia dos usos e da preservação no uso do crack. 2000.


Coordenação Nacional de Saúde Mental, Álcool & Outras Drogas
15.dezembro.2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CAPACITAÇÃO DE AGENTES DO ALEITAMENTO MATERNO

Aconteceu nos dias 26 e 27 de novembro mais uma ação do PROJETO MATERNAR, idealizado e conduzido com todo o carinho e cuidado (VOLUNTARIAMENTE) pela colega Angela Maria Amâncio de Ávila. O evento foi um sucesso e contou com cerca de 200 participantes, de vários segmentos da comunidade. Acreditamos que somente ações como essa, gestada com o genuíno amor materno, é que poderão amenizar a dura realidade que se abate sobre crianças, mulheres, famílias e sociedade. Vamos em frente !!!
CAPACITAÇÃO DE AGENTES DO ALEITAMENTO MATERNO

OBJETIVOS: CAPACITAR AGENTES PARA INCENTIVAR E DAR APOIO À AMAMENTAÇÃO.

PÚBLICO ALVO: Gestores, Estudantes, Agentes e Profissionais de Saúde, Educadores, Agentes de Comunitários, Pessoal da Vigilância Sanitária, SISVAN, Ministério Público, Conselhos Tutelares, Participantes do Projeto MATERNAR, UNIARAXÁ, Conselheiros de Saúde, Agentes das Pastorais, Centros Espíritas, Igrejas, LBV, Clubes de Serviços, Associações de Bairros, Lojas Maçônicas, Vovós e outras Pessoas que se interessarem ser Amigas da Amamentação em seu bairro.

DATA: 26 e 27 /11/09
HORÁRIO: 8: 00 às 12:00 - 13: 30 ás 17: 30
LOCAL: Hotel Virgilius Palace – R. Dr. Franklin de Castro, 545
INSCRIÇÕES: Fone: 3691.7138/7137 ou no dia 26.11, no local do curso.

CERTIFICADO: 100% DE FREQUÊNCIA.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Rede de Saúde Mental e ECOSOL: a construção de uma rede de colaboração solidária

O presente texto busca fazer uma reflexão acerca da construção da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária, mas não num sentido de enumerar suas realizações, e sim dar relevo a estratégia de construção de redes de colaboração solidárias destacando a importância de reafirmar um dos principais referenciais para a construção do processo da Reforma Psiquiátrica brasileira: a estratégia de Rede.
A Rede de Saúde Mental e Economia Solidária surge, primeiramente, como dispositivo que aponta a falência do manicômio, ao mesmo tempo em que tece possibilidades reais de contrapor a lógica de exclusão sócio-econômica tentando resgatar o fazer, os desejos e os transbordamentos daqueles que se propõem a dar algum sentido à loucura.
Esta Rede é resultado de um conjunto de atividades organizadas entre a Saúde Mental e a Economia Solidária1.
Aqui busca-se afirmar o conceito de Rede tão presente no processo de Reforma Psiquiátrica brasileira, como em todo o processo de construção desse novo ator social, que é a Economia Solidária.

A Saúde e sua organização em Rede

Na lógica da territorialização, os serviços de saúde mental não são voltados a tratar a doença, mas se configuram como dispositivos de promoção de saúde, de espaço de criação e desenvolvimento de sociabilidades e o cuidado oferecido mostra-se como porto seguro para o indivíduo e sua comunidade.
A implementação desses equipamentos não pode ser realizada a partir de territórios isolados uns dos outros, sendo necessário toda uma estratégia de conexão dos mesmos, tendo não mais o hospital (psiquiátrico ou não) como seu principal paradigma mas, uma complexa rede de inter-relação onde desde a unidade básica de saúde, da visita domiciliar do PSF, passando pelos CAPS e os hospitais gerais, tece-se uma grande teia voltada ao atendimento público e gratuito e que promove saúde e qualidade de vida.
Sendo assim, o processo de implementação e fortalecimento da Reforma Psiquiátrica não pode ser entendido como um processo que um dia vai ser definitivamente implementado. Mas, pelo contrário, a construção da RP é um processo coletivo que sempre necessitará de aperfeiçoamento e de melhoras, já que o mesmo deve estar aberto a sua própria superação, pois é fundado sobre a estratégia de Rede.
É importante salientar que o atual processo de passagem da gestão do SUS para as mãos da iniciativa privada (as chamadas Organizações Sociais - OS`s) é um processo arriscado e perigoso, pois ataca frontalmente a integralidade do sistema e de sua estratégia de construção de uma Rede pública de promoção de saúde e de cuidado. A "terceirização" da saúde, como alguns preferem chamar, é uma das maiores ameaças ao Sistema Público e gratuito de saúde (conquista dos trabalhadores e usuários) e que virou referência internacional de universalidade das ações de saúde2.
A entrega dos equipamentos de saúde mental às organizações sociais, entre outras desvantagens, dificulta o trabalho organizado em Rede, já que os equipamentos podem ser geridos por O.S`s diferentes dependendo dos critéiros elegidos pela administração municipal. A lógica de funcionamento das O.S`s não prioriza o diálogo entre os equipamentos e o trabalho conjunto baseado na parceria; o que impera na lógica de funcionamento é a do mercado, que não permite colaboração ou solidariedade entre os equipamentos, mas acirra a competição e promove o isolamento.

Inserção no Trabalho e Saúde Mental: Porque a estratégia em Rede?

Ao falar em Rede falamos essencialmente de diversidade e de potencialização de uma sinergia coletiva; um processo aberto e de construção de enunciações coletivas. As redes são espaços abertos ao diálogo e a troca onde cada membro, cada parte só se fortalece a partir de um processo mesmo de fortalecimento do coletivo3 ali envolvido. A consistência da rede assim se constrói através de relações, de fluxos, de pulsões que se realiza na colaboração, em seu processo mesmo de diversidade. Quanto mais diversidade, mais forte se faz uma Rede. Um movimento que não se funda no salto qualitativo da dialética, mas sim, num processo mesmo rizomático, onde o que vale, são as interrelações e seus fluxos.
Esse processo de organização da inserção no trabalho dos usuários da saúde mental através da organização da Rede vem reforçar todo um processo de organização de coletivos (projetos/ empreendimentos) de produção de conhecimentos, saberes, trabalho e cultura que já se operam nos equipamentos de saúde mental da rede pública de saúde.

A escolha na relação entre saúde mental e economia solidária de construção de uma Rede, vem primeiramente afirmar que:

a) são movimentos com histórias, dinâmicas e tempos diversos;

b) tem atores, movimentos, estratégias que se inter-relacionam/ trocam;

c) tem assim, em seu interior, singularidades que não concorrem, mas sim, que buscam a criação de espaços que possibilitem criar enunciações coletivas.

Assim, a construção de uma Rede se associa a idéia de não cairmos nos diversos erros já vistos no conjunto do movimento social e que ainda é a forma organizativa hegemônica: a de construção de "direções" que se mantém independente do processo vivo de mobilização e militância. Não caindo nesse processo tão danoso (e infelizmente, tão presente) de criação de personalidades que representam o movimento social e que gera automaticamente um "culto a personalidade", a estratégia em Rede se torna uma tentativa de construção de movimentos sociais formados por diferentes (e não por iguais) que buscam não a construção de estruturas verticais ou direções, mas um processo vivo onde quem está presente - quem produz, vive e constrói a Rede - é quem dá seu sentido e direção.

A Rede assim constitui-se através das dimensões ética, estética e política.

Politica: as redes de colaboração solidária constituem-se através de uma gestão autogestionária garantindo a todas as pessoas iguais condições de participar e decidir. Buscando dar visibilidade e ampliando as conquistas de políticas públicas emancipatórias que visam o apoio, fomento e a articulação de novas cadeias produtivas solidárias, que valorizem a diversidade de atores e processos, em especial, os segmentos sociais que foram históricamente "invisibilizados".

Ética: as redes de colaboração solidária promovem a diversidade, o compromisso pela qualidade de vida de todos e todas, o desejo do outro em sua valiosa diferença, para que cada pessoa ou coletivo possa usufruir nas melhores condições possíveis, das liberdades públicas e privadas. Desejar o diferente significa acolher a diversidade, em suma, acolher as mais variadas formas de realização singular da liberdade humana que não neguem as liberdades públicas e privadas eticamente exercidas. Promover as liberdades significa garantir às pessoas as condições materiais, políticas, informativas e educativas para uma existência ética e solidária.

Estética: porque a Rede constrói plasticidades, efeitos, atividades, enunciados que se formam no coletivo. Expressando, a combinação de cores, acordes, sentidos das diversas singularidades manifestas nos projetos/ empreendimentos e nos usuários envolvidos.

A força da Rede de Saúde Mental e Ecosol reside nos diversos projetos/empreendimentos de trabalho que tenham como protagonistas os usuários de saúde mental que dela fazem parte e nesse sentido busca ser um espaço vivo de encontro e trocas. Nesse espaço não é o transtorno mental ou a dificuldade derivada do sofrimento que é evidenciada, mas sim a beleza das produções. E são tantas...bolsas, artesanato, quadros, poesia, música, dança, samba, etc.
Nesse processo os tempos dos projetos/ empreendimentos se chocam, pois alguns já estão em um momento mais avançado na inserção econômica e social. A impaciência de alguns, a tentativa de agir sozinho e de avançar sem os outros torna-se a grande tentação. A idéia de que um projeto é melhor que o restante é sempre um grande perigo e pode levar à morte uma Rede de colaboração solidária. Nesse sentido, a paciência, o respeito às temporalidades e as diferenças e a criação de enunciações coletivas são os principais pilares para a construção de uma Rede.
Nesse sentido, a Rede de Saúde Mental e Economia Solidária se configura como um espaço nômade, capaz de expressar em sua diversidade as singularidades de temporalidades diversas, que podem sim, conectar-se no objetivo comum que é inserir no campo do trabalho os usuários da saúde mental. A Rede pode ser entendida como um espaço, um coletivo, do que é produzido dentro dos equipamentos de saúde, já que o projeto de geração de trabalho e renda daquele serviço que participa da Rede é resultado da clínica emancipadora praticada, pois o técnico da saúde mental que preza pela autonomia e emancipação do sujeito que é usuário criará tecnologias e coletivos que darão conta da questão do trabalho do usuário.

As principais características de nossa Rede são:

a) organizar uma diversidade de projetos/ empreendimentos em um movimento orgânico com potencial transformador;

b) buscar saídas coletivas desses projetos por trabalho, renda e pela afirmação e fortalecimento de suas singularidades

c) são em sua própria dinâmica a negação das estruturas de exploração do trabalho, de expropriação no consumo e de dominação política e cultural, e

d) criam em sua diversidade novas formas pós-capitalista de produzir e consumir, de organizar a vida coletiva afirmando o direito à diferença e à singularidade de cada projeto/ empreendimento;

A título de conclusão o objetivo básico da Rede de Saúde Mental e Economia Solidária é construir de maneira solidária e ecológica novas cadeias produtivas, que tenham em seu interior a potência de agir, o afecto fundado no coletivo. Fazendo, dos projetos/ empreendimentos de trabalho da saúde mental um agente econômico, social, político e estético fundados na criação e no potencial produtivo dos usuários de saúde mental.

Notas:

1. No ano de 2008, duas atividades de discussão e formação entre atores da Reforma Psiquiátrica marcaram a agenda desses encontros: as atividades contaram com a presença do Prof. Dr. Valmor Schiochet, do Núcleo de Programas Sociais da Superintendência Regional do Trabalho-SP, além do Fórum Paulista de ECOSOL. As atividades ocorreram no Programa de Pós Graduação de Enfermagem - USP e no CAPS Itaim Bibi. A partir, dessas atividades a Rede começou a se reunir de 15 em 15 dias, e posteriormente mensalmente, realizando: a) formação de 58 multiplicadores em Saúde Mental e ECOSOL e a I Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na Escola de Enfermagem da USP. Mais recentemente, a Rede organizou um ônibus, com apoio do CRP-SP e do SINPSI, para a Marcha dos Usuários, participando e entregando suas reivindicações em uma Audiência com o Prof. Paul Singer (SENAES/MTE). Em breve, ocorrerá a II Feira de Saúde Mental e ECOSOL, na cidade de Embú das Artes.

2. Benedetto Saraceno, da Organização Mundial de Saúde, em visita ao Brasil, em 2009, realizando diversas Conferências e reuniões com o Ministério da Saúde afirmou que: "Fortalecer a Reforma Psiquiátrica brasileira é fortalecer a OMS",
ver na página: http://www.projetosterapeuticos.com.br/www.saudeecosol.wordpress.com.

3. Entendido esses coletivos, como aponta Jean Oury, no livro, O Coletivo. Ed. Hucitec, 2009: "Pode-se então, de maneira metodológica, considerar, mas muito provisoriamente, a palavra "Coletivo" como um tipo de "caixa preta"(cf. A lógica das caixas pretas), tentando a princípio, ver o que sai, quais são os efeitos, quais são os efeitos desejados. Seria o trabalho de cada um fazer uma lista - jamais exaustiva - do que é desejado".

Leonardo Penafiel Pinho e Marilia Capponi
www.projetosterapeuticos.com.br