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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ESQUIZOANÁLISE E PRODUÇÃO DE VIDA - JORGE BICHUETTI





Foucault afirmou que o próximo século seria deleuzeano.
De fato, nem sempre o entendemos: a esquizoanálise se tornaria um pensamento dominante ; ou o mundo se revolucionaria , consubstanciando no seu dia-a-dia o ideário libertário da esquizoanálise.
Neste sentido, a profecia foucaultiana não se cumpriu...
Todavia, nos que existimos mergulhados neste de mundo de exploração, dominação e mistificação, encontramos no pensamento de Foucault um campo de esperança e resistência, sonho e vida nova.
A esquizoanálise nunca se pretendeu molarizar-se e encastelar nos tronos académicos ou políticos, num apogeu de triunfalismo e poder.
Ela se constitui num processo ininterrupto de invenção da invenção.
E se destina, fundamentalmente, a deter - no homem e no socius, o fascismo; ela surgiu para criar uma vida não-fascista.
Assim, brilha e faisca, é uma centelha da aurora, um voo livre nos páramos do infinito, quando delimita seu chão: o direito à diferença. Um chão florido e multicolorido, com canções e poesia, del´rios e magia...
Visa morte do ego...
A institucionalização do ego da subjetividade capitalista é uma normatização de modo de ser e existir marcado:
- pela unidade, totalização e permanência. É estabilidade e inflexibilidade...
- narcisismo - individualismo, egoísmo e egocentrismo.
- repetitivo, tende a cristalizar o mesmo;
- edípico: triangular, possessivo e excludente.
,,, Um ego da falta e castrado, fadado à angústia, e arredio ao novo.
A esquizoanálise nos percebe como movidos pelo excesso, pela produção desejante: singularidade, multiplicidade e devires.
Somos metamorfoseantes ( Orlandi)...
Dai, sua função é alisar os instituídos e gerar espaços lisos -instuintes onde possam florir o novo, o inusitado.... Onde a impermanência floresça e frutifique nos possibilitando uma individuação que seja no redemoinho da impermanência a invenção criativa de " uma nova terra, de um povo por-vir".
Para além, do reprimido que volta, ela nos permite bifurcar e explorar novos caminhos e novos eus.
Podemos, assim, já mergulhar no universo esquizoanalítico e ser e existir na magia da liberdade, nos encantos da ternura e na potência da solidariedade.
Uma vida, n revoluções...
N revoluções, por uma vida nova e disruptiva: vontade de potência que afirma nossas posições de desejos no território dos bons encontros sob a égide das paixões alegres.
Deleuzeemos, então, num devir fénix...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Sol de Primavera

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz  no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender...


 
Composição: Beto Guedes / Ronaldo Bastos

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Morre Lentamente

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

domingo, 8 de agosto de 2010

A verdade é o que você sente...

É o amor...
O resto é ilusão
A gente tem que chegar ao equilíbrio
Ao caminho do meio
Mas não é fácil não...
É preciso muitas oficinas de Pensamentos Livres...
O pensamento ultimamente é muito ruim...
Eu só tenho pensamentos negativos
Eu tô buscando melhora, ajuda
Eu sozinha não vou conseguir
Agora você conhece o caminho, o coração.
Eu agora só penso em morte
Às vezes, eu choro...
Eu penso muito na natureza, verde, flor.
Gosto de ganhar flores...
A criança retrata toda pureza, liberdade
Quando a gente é criança, é livre
Não tem pensamento ruim...
Quando a gente está doente, a liberdade acaba
Ficamos dependentes dos outros, de remédios.
“vou te contar...
Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender...
Fundamental mesmo, é o amor...”
É impossível ser feliz sozinha
M. quando nós vamos catar umas goiabas?
Diz que Deus não castiga se roubar só frutas na horta do vizinho...
Na Rua Santa Rita, antiga Rua das Pedras
Tinha tantas mangas!
A gente juntava... tinha jabuticaba, limão, mexerica...
E era bom
Eu tinha doze anos...
Se não pode fugir, não
Lá fora é só ilusão...
Você tá dizendo o tempo todo que o importante tá dentro da gente???
A vida ensina pra gente que não vivemos sozinhos...
Que viver é sentir,
Não vegetar...
Não somos frutos do pecado
Do bem e do mal!
Se estamos aqui, É PRA VIVER!
Quando chegamos no coração
Chegamos no equilíbrio!
Quando passamos a viver o lado bom do amor,
O lado positivo
O lado ruim deixa de existir
Possa atrair as coisas boas
Por isso eu agradeço de estar aqui
Por isso eu amo todos vocês incondicionalmente.
Ninguém chega à felicidade senão for pelo coração.
“ostra feliz, não faz pérola...”

Poesia elaborada como construção coletiva em OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, pelos usuários e profissionais do Ambulatório de Saúde Mental de Araxá, em 03/08/2010.

UM PENSAMENTO LIVRE...

Não vivo de utopia...
A realidade é feita de supostas fantasias
A realidade é!
A criança em mim, a amo!
Em brincadeiras e momentos de expansão
Livres! Todos somos livres!
Mas o pensamento te condiciona...
Pensamento Livre...
Coisas que passam pela cabeça,
E não quer contar pra ninguém...
Falo o que sinto
Isso é pensamento livre.
Fantasio que estou em Paris...
Que fiz gol na copa...
Que estou com uma namorada bonita...
É o que pensa, imagina...
Você tem idéias a partir da música...
Cada um tem sua idéia...
Você pensa o que te toca,
O pensamento pode ser mais livre...
Ninguém aprende aandar sozinho
Pensamentos quaisquer.
As coisas devem nascer dos pensamentos
O pensamento fala também da infância...
Cada um viveu a sua.
Lembranças da infância...
O que meu pai fazia...
A região em que vivi...
A gente nunca deixa de ser criança.
As mesmas do hoje, não lembro tanto quanto do passado...
Estamos programados a viver desde o começo...
A gente não pode ser livre???
A minha idéia era declamar poesias...
Um pensamento livre de cada um:
“ganhar na megasena”
“ ser feliz com ele...”
“desejo que todos se amem mais, vivam intensamente cada momento...”
“resultado do que ingere, se transforma em hidrato de carbono, e dirige seu pensamento para algo que não foi ainda condicionado...”
“Tudo o que já tinha que existir, já existiu... Não há muito para existir...”
“não somos totalmente livres”
“ninguém prende o que você pensa”
“é bolinha de sabão...”
“se é condicionado, não é livre...”
“não sei...” “é mais do que eu sei tudo”
“são fantasias... estar apaixonado... fantasiar que está com alguém...”
“é liberdade, vivo minha liberdade...”
A falta de liberdade dos outros, me afeta.
Definições relativas – é pensamento livre!
A bolinha de sabão, é o nitrogênio mais leve que o mundo aqui de fora...
O corpo mental pensa independente do seu sentir
Quando deseja que todos sejam livres, isso é liberdade???
Só vivendo pra saber...
Não dá pra ter respostas na ponta da língua...
Querem o bem da sociedade por que isso afeta a eles
É o pensamento livre, de ser livre!
A liberdade de um, depende da liberdade de outros.
O prazer tem a ver com sentimentos
Não, não tem...
É sentimento, diferente de pensamento.
Pensamentos desejantes são diferentes de pensamentos mentais
Você não é um trem...
Não precisa de um trilho.
A criança está dentro, mas não se vive só ela.
Pensamento livre é do “ser” humano...
Há pensamentos diferentes...
Cada um pensa do seu jeito
Cada um respeita o que o outro pensa
Parar de pensar em respostas decoradas
E viver mais intensamente
É muito pensamento
É profundo...
Há de trabalhar a humildade de cada um.
Reconhecer quem você é.
Pensamos muita coisa, mas temos limitação para pensar e agir.
Falta humildade quando se pensa em liberdade.
Nós somos limitados!
Fazemos o que podemos,
Mas é pouco em relação ao mundo à volta
A criança interior, inocência, infância
Reporta à humildade
Um dia, a gente não sabia...
A gente precisa de um pouco de loucura, pra cortar a corda e ser livre...
Não! A gente precisa de sensatez e liberdade
O segredo está no universo, e quando se descobre ele, deixa de existir.
PENSE LIVRE!!!!!
O labirinto não nos mostra o caminhar,
Mas nos ensinam a caminhar
Por onde passamos,
Cenas repetidas em busca de saída...

Poesia elaborada como construção coletiva em OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, pelos usuários e profissionais do Ambulatório de Saúde Mental de Araxá, em 27/07/2010.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Silêncio e Palavra

I
A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos.

Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.

Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.

Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)

Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transformaremos.

E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta - humilde e pura - ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos palavra e homem.

Thiago de Mello

O Ego e a Esquizoanálise

Normalmente, estamos acostumados a ouvir e ler sobre o valor do ego. Inclusive, é ele idolatrado como mediador de conflitos e negociador de atitudes que fazem do homem, um bom homem: adaptado, cordato e capaz de suportar frustrações.
Ele nos dá a realidade: nua e crua. E ele nos acomoda na realidade submissos e resignados.
Um ego forte é resiliente. Se recompõe, se reestrutura... sofre e depois de um tempo assimila o mal estar e com ele convive.
Segundo muitos, é ele o responsável por suprimirmos de nossa vida o reprimido e seus conflitos.
Deleuze discordava... Dizia que era a própria repetição que gerava as repressões e seus conflitos derivados.
Propõe, então, matar o ego.
Egóicos, o escutamos temerosos.
Afinal, somos apegados ao nosso mundinho e ao nosso Eu.
Contudo, é o Eu um dos mais poderosos inimigos da mudança.
Ele nos apequena, nos restringe e nos limita.
Ele nos faz cópias e boas cópias, tais quais as que querem o mundo, status quo, mundo cinzento e de repetições.
O que impede o ego? A singularidade, a multiplicidade, o devir, ou seja, a individuação como sujetivação livre e libertária.
Há outro mundo para além deste, que bloqueia a atualização de virtualidades potentes.
Há vida após a morte do ego: vida livre e dada à potência dos acontecimentos que emergem na florescência do nosso inconsciente produtivo e maquínico, onde o desejo e produção se conectam nos redemoinhos da vida que é vontade de potência, bons encontros e paixões alegres, espaço liso e nomadismo.
É o que pode um corpo que se libera e já não sendo mais espírito acorrentado( Nietzsche), se aventura na exploração da vida, terna e suave, solidária e gentil, dos guerreiros que se inventam como permanente libertação.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

, Saudade...


, Saudade...
Lua, estrelas, cachoeira, riacho
Boas recordações
Liberdade, proteção
Chuva, purificação
Renovação... prazer é alegria!
Era vaca, virou rato...
Fornece coisas boas...
Cresce e se forma, transforma
Tem necessidades e lembranças
Uma coisa vai construindo outras...
Sol e alface,
Sem sol nada cresce
Sem sol não se vê o dia,
Não se anda pelas ruas...
Sol é alegria
Sem alegria não se vê o dia,
Não se anda pelas ruas!
Alegria...
Harmonia é equilíbrio
Materializamos o que sentimos
Isso nos faz poetas,
Organizamos o que sentimos
Transfiro minhas asas de águia para o papel,
São multicolores
As asas da liberdade tem cores
Amor, é a energia que traz equilíbrio,
Amor é um mundo colorido
Me transformei de lagarta em borboleta
Rompi o casulo da matéria
Para um vôo de liberdade
Quando descobrir meu eu verdadeiro
Não terei mais o que descobrir
Não terei mais sentido...
Num riacho, no pantanal
O sol nasce na barraca de lona
Não sentia medo, nem de animal, nem de índio
Só simplicidade e respeito
Pouco se tinha, muito se vivia
Hoje tenho muito e sou pouco feliz
As poucas alegrias de hoje acalentam...
Difícil é explicar a saudade que se sente...
Minha cachorrinha, é carinho, confiança, amizade, alegria...
Isso me distrai
É pensar em brincadeira... parece prazer!
Não dá conta de resumir tudo...
O ser humano precisa aprender a escutar,
Chamam de louco!
O que se vive é real, para você
Pode não ser para eles... mas é bom!!
Depois que rompi o casulo
Nas asas da imaginação
Dentro do pensamento livre
Eu cheguei ao céu
Descobri o mundo verdadeiro
Que está dentro do meu coração...

Poesia elaborada como construção coletiva em OFICINA DE PENSAMENTOS LIVRES, pelos usuários do Ambulatório de Saúde Mental de Araxá, em 06/07/2010.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

As Siglas, Os Usuários e Os Familiares

Existe uma camisa-de-força que nos classifica, que nos separa e, que acaba se transformando em um retrocesso no movimento da saúde mental. Hoje, devemos estar inseridos em uma das duas classificações, ou somos MNLA, ou somos Rede Internúcleos, porém, diante da angústia dos usuários e dos familiares, esta questão de siglas... é o que menos importa.

Nem seccionar, nem segregar, não é esta a nossa intenção, absolutamente, ao contrário. Nossa intenção é ter como meta a união dos movimentos sociais e da reforma psiquiátrica. Precisamos repensar nossos desafios e o nosso futuro, como força de mudança. Precisamos estar articulados, integrados, unidos e fortalecidos. Nossas metas precisam ser debatidas sempre, sem que fiquemos, somente, na “queixa paralisante”. Precisamos ter critérios bastante nítidos e claros. Nossa participação tem que ser feita só como movimento social, sempre em expansão, sem nos permitir ser monopolizados, ou mesmo, sermos monopolizadores. Temos que estar preparados, acima de tudo, para sermos – INDEPENDENTES!

Mais uma conferência. Ainda é cedo para uma avaliação, entretanto, de imediato, foi muito produtiva, avançamos muito, mas, por enquanto, tudo está só no papel. O tempo dirá se as propostas aprovadas serão colocadas em prática – aguardemos, pois...

O movimento social esteve presente com muita ênfase. Usuários, familiares, técnicos, intersetorialidade tiveram a possibilidade de discutir com ampla e total liberdade, suas propostas que, agora, passarão por um processo de decantação, para se autenticarem – ou não. Naquele calor dos debates, não conseguimos perceber tudo e nem nos lembrar de que, poderíamos haver feito outras propostas, que somente agora, nos ocorrem.

A proposta que não foi feita: Que usuários e familiares não usem em suas apresentações, seu pertencimento a esta ou àquela sigla. Que existam quantas siglas existirem, porém, que elas não sejam usadas para nos identificar, como gado marcado a ferro. Sugerimos que a apresentação seja feita, apenas, como: fulano-de-tal/usuário/familiar/técnico/ simpatizante; militante da saúde mental e da reforma psiquiátrica e local de orígem. Sabedores da nossa importância, dispensamos o uso das siglas. Estas siglas que nos identificam, lembram o caso do cartão para requisição de medicamentos com o carimbo “esquizofrênico”, denunciado neste grupo, e que, nos causou tanta indignação.

Nossa fala é a fala do familiar, do observador da cena política, dos movimentos sociais, da sociedade civil, da cultura, da política institucional e da política da saúde, que são temas conflituosos sabemos, mas, de um conflito transformador e criativo. A operação “ficha-limpa” não deveria se restringir, apenas, aos políticos, mas, ser extensiva a todos, sem exceção.

Nessa próxima eleição que está se pondo, queremos saber dos candidatos, qual a sua programação para a saúde mental, nas três esferas de governo. Nós, usuários e familiares, precisamos ter estratégias e propostas claras e objetivas, a fim de evitar sermos manipulados por lideranças messiânicas, ideologias, crenças, religiões, partidos políticos, laboratórios, sindicatos, conselhos, instituições corporativistas e etc. Disputas hegemônicas deverão, sempre, ser denunciadas. As lideranças serão espontâneas e, deverão submergir, a fim de que haja espaço para que outras ocupem esse lugar.

Geraldo Peixoto e Dulce , representantes dos familiares, implicados com a luta antimanicomial.

Rede HumanizaSUS

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Pintura: Metamorfose de Narciso - Salvador Dali

Texto: Narciso Cego
 Thiago de Mello

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me freqüento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo – pânico mudo -
entre o sonho e o sonhador.

Esquizoanálise e Potência de Vida

Neste momento, quando nos preparamos para o II Congresso Internacional de Esquizoanálise e Esquizodrama, que se realizará em Uberaba, nos dias 10, 11 e 12 de setembro de 2010, refletimos no fluxo dos acontecimentos: Qual é o rosto da esquizoanálise?
A esquizoanálise é uma corrente de pensamento e intervenção que se pauta pela afirmação da vida e que entende a vida e a realidade como devir.
E o devir que é a própria essência do real, rompe com a idéia de permanência, imutabilidade, estabilidade e identidade rígida e fixa.
De fato, a potência de vida e da vida que emerge na compreensão esquizoanalítica é marcada pela singularidade, pela multiplidade e pela individuação.
Num mundo de cópias de normalidade, de repetições e identificações, inclusive de exclusão do que não enquadra, a esquizoanálise surge revelando a potência da diferença.
Neste contexto, é insurgente, rebelde e imanente ao pensamento e ato de mudança.
Antes, toda mudança era pensada pela idéia de escassez e falta, asssim, se movia pela negatividade.
A esquizoanálise acentua que a mudança se dá na potência da vida que é excesso.
Afirma, assim, seus criadores: a atualização do virtual não se opera pela negatividade nem pelo ressentimento e culpa, se dá pela diferença, pela divergência e pela criatividade.
Nosso mundo é mundo de evitação do novo, e, portanto, valoriza a repetição e exclui a diferença; idolatra a resiliência e marginaliza a resistência; e, por fim, captura a criatividade, quadriculando-a como cultura midíatica.
Como romper com este império de manutenção do status quo?
Deleuze pode desvendar o papel da dramatização; Guattari, da miltância que age mudando já na perspectiva da revolução molecular.
Deriva-se daí o valor do Esquizodrama e dos movimentos sociais minoritários e afirmativos.
Tudo pela vida... Pelo direito à diferença... E por um outro mundo possível e necessário.
Muito semelhante ao conceito de Hebe de Bonafini que disse que revolução se faz, fazendo, se faz, partilhando e se faz dando-se doando-se...
Enfim, afirmando-se a vida e pela vida no novo já...

Jorge Bichuetti
www.jorgebichuetti.blogspot.com.br

sábado, 12 de junho de 2010

Potência e Vida

Muitos pensam a potência e capacidade de viver submissos ao ideário da subjetividade capitalística.
Vemo-la na força bruta, na riqueza e no poder...
Ela, assim pensada, torna-se um atributo dos vencedores e venderores do capitalismo.
Deleuze e Guattari rompem com este paradigma de potência-dominação e impotência-submissão.
Outro olhar, outro pensar...
Existe para eles potência na fragilidade, na enfermidade, na velhice, nas minorias oprimidas...
Se conhecemos o que pode a força e o fuzil, pouco sabemos do que pode a suavidade e a ternura.
E elas podem... Podem para além do registro da relação Amo-Senhor, para além da servidão e do servilismo.
O corpo cheio com órgãos pode impor-se, sobrepor-se, destruir e lastimar o outro e a vida.
A suavidade e a ternura podem compor... e devir-se fortaleza nos territórios da solidariedade e nos vôos do amor.
Devir-se anjo e guerreiro é desterritorializar o corpo fálico, viril e virulento e na suavidade de um corpo sem órgãos, alisar os campos da existência e reinventá-la nova, na intensidade ética-estética dos encontros amorosos e da sensibilidade cósmica.
Um novo jeito de viver... na força da gentileza e da compaixão, da compreensão e da doação.
Outro mundo, outro povo...
Um lugar onde a criança brinca e sorri nas rugas do rosto envelhicido, mas revitalizado pela potência suave do amor-ternura.
Um lugar onde todos desfrutem do devir mulher, animal, mineral e, também, do devir imperceptível...
O que pode um corpo? se fálico, com órgãos... pode na brutalidade da dominação.
Se outro, dado às forças produtivas da vida e à realteridade, pode... na suavidade de quem já não vive de conquistas, mas de mudanças radicais, onde florescem as margaridas e os girassóis e onde cantam o sabiá e os curiós.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Diário de Bordo: Caminhos e Lutas

Cada passo no caminho é um invento de vida. Vida repetida ou vida nova...
Amanhece, e o novo dia chega com infinitas oportunidades. Encontros, desencontros... alegrias, tristezas...
Já ousaste pensar no que pode um homem se potencializa a vida no correr dos minutos de um dia?
Podemos dar o abraço de carinho e ternura, florindo o caminho dos nossos amores...
Podemos dizer não... a tudo que oprimme e desumaniza a vida...
Podemos sonhar com uma vida diferente, onde o nosso coração saiba voar com os passarinhos, sorrir com as flores, lutar com os guerreiros e amar com os amantes, que sob os floxos de paixão da lua se fazem encantados...
Podemos gritar que não queremos o fim do 13° salário, já aprovado pela câmara dos deputados...
Podemos abrir fissuras na opressão e conquistar espaços de liberdade...
Podemos amar a todos, e movidos pela compaixão e pela solidariedade, criar atos de de generosidade acolhendo os filhos do nada e de ninguém...
Podemos nos aventurar e tirar nossas máscaras, sendo o que sonhamos e não o que nos obrigam a ser...
Construimos nossos destinos... Passivamente, no sim da covardia que aceita silenciosa os alvitres da exclusão... Ou, com valentia exigindo direitos humanos, direito à diferença, igualdade e justiça social.
Famintos, mulheres violentadas e machucadas, crianças na rua, jovens perdidos e desiludidos, desempregados, negros, gays, índios... Todos sofrem e clamam no chão, que o céu os salvem das mazelas deste mundo.
O céu pede mãos para se tornar presente nos horizontes do mundo.
A tua, a minha, a nossa mão que é necessária...
Diga, faça algo: ame com esperança e ternura, partilha e doação.
Diga, faça algo: lute... um outro mundo ainda é possível.



SETEMBRO, 10, 11 e 12. EM UBERABA, MG, OCORRERÁ O I° CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESQUIZOANÁLISE E ESQUIZODRAMA: 
POR UMA NOVA TERRA, POR UM POVO-POR-VIR...
VENHA! PARTICIPE!

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Lya Luft : A idade e a mudança

Mês passado participei de um evento sobre o Dia da Mulher. Era um bate-papo com uma platéia composta de umas 250 mulheres de todas as raças, credos e idades.
E por falar em idade, lá pelas tantas, fui questionada sobre a minha e, como não me envergonho dela, respondi. Foi um momento inesquecível...
A platéia inteira fez um 'oooohh' de descrédito. Aí fiquei pensando: 'pô, estou neste auditório há quase uma hora exibindo minha inteligência, e a única coisa que provocou uma reação calorosa da mulherada foi o fato de eu não aparentar a idade que tenho? Onde é que nós estamos?' 
Onde não sei, mas estamos correndo atrás de algo caquético chamado 'juventude eterna'. Estão todos em busca da reversão do tempo.
Acho ótimo, porque decrepitude também não é meu sonho de consumo, mas cirurgias estéticas não dão conta desse assunto sozinhas.
Há um outro truque que faz com que continuemos a ser chamadas de senhoritas mesmo em idade avançada. A fonte da juventude chama-se "mudança".
De fato, quem é escravo da repetição está condenado a virar cadáver antes da hora.
A única maneira de ser idoso sem envelhecer é não se opor a novos comportamentos, é ter disposição para guinadas. Eu pretendo morrer jovem aos 120 anos.
Mudança, o que vem a ser tal coisa?
Minha mãe recentemente mudou do apartamento enorme em que morou a vida toda para um bem menorzinho. Teve que vender e doar mais da metade dos móveis e tranqueiras, que havia guardado e, mesmo tendo feito isso com certa dor, ao conquistar uma vida mais compacta e simplificada, rejuvenesceu.
Uma amiga casada há 38 anos cansou das galinhagens do marido e o mandou passear, sem temer ficar sozinha aos 65 anos. Rejuvenesceu.
Uma outra cansou da pauleira urbana e trocou um baita emprego por um não tão bom, só que em Florianópolis, onde ela vai à praia sempre que tem sol.
Rejuvenesceu. Toda mudança cobra um alto preço emocional. Antes de se tomar uma decisão difícil, e durante a tomada, chora-se muito, os questionamentos são inúmeros, a vida se desestabiliza. Mas então chega o depois, a coisa feita, e aí a recompensa fica escancarada na face. Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna.
Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.
Olhe-se no espelho...

Lya Luft

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Porta Fechada

Sartre escreveu Teatro de Situações para estimular os franceses a lutar contra o nazismo. Suas peças teatrais denunciavam veladamente a ocupação nazista. Em 1944, escreveu a peça Huis clos (Portas fechadas), traduzida no Brasil com o título: Entre quatro paredes.
Entre quatro paredes mostra a situação do absurdo, da incomunicabilidade, do controle sobre as pessoas. Numa sala com estatueta de bronze, símbolo de insensibilidade, Sartre coloca três personagens: um homem e duas mulheres. Garcin fugira do combate, alegando ser pacifista. Um "covarde". Estelle, da alta sociedade, engravida, vai dar à luz na Suíca e lá joga a criança num lago. É "infanticida". Inês é funcionária pública. Não gosta de homem. Enamorou-se de mulher casada. E o esposo desta, desesperado, suicidou-se. Inês define-se: " Sou má, preciso do sofrimento dos outros para existir". É cruel.
Os três personagens agem e reagem como "mortos vivos". Aos poucos, cada qual vai sendo desnudado. Nenhum consegue esconder sua vida. Todos ficam expostos ao "olhar" de todos. Humilham-se. Hostilizam-se. E Inês diz: "Estamos no inferno. Condenados".
Sartre apresenta o "olhar" como forma de devassar e fiscalizar a vida dos personagens. "Não quero apodrecer em seus olhos", diz Garcin a Estelle. A conversa dos três é irônica e frustrante. Garcin reclama silêncio, mas inês e Estelle continuam a tagarelar. Os três mantêm "olhar" vigilante. Cada um crava o olhar nos outros. Garcin quer escuridão para fruir intimidade com Estelle. Inês lembra que ali nunca há escuro e que os dois estão sob o seu olhar implacável. Olhar de "gestapo". Revoltada, Estelle apanha uma faca para matá-la. Irônica, Inês diz que já está " morta". Desatinado, Garcin quer ir embora. Mas a sala está trancada. Por fim, a porta é arrombada. Os três estão indissoluvelmente atados entre si. E cada um é "carrasco" para os outros. Inês arremata: "Temos de ficar juntos, sozinhos, até o fim".
Garcin resvala a mão pelo "bronze" insensível e sente que está no inferno. "Aqui, as lágrimas não correm." E acrescenta: "Todos esses olhares me devoram". Garcin descobre que o inferno não é enxofre nem fogueira. E profere a sentença agressiva: "O inferno são os outros".
Entre quatro paredes mostra que os seres humanos podem estar na mesma sala e "infernar-se" psíquica, política e moralmente. As pessoas castigam-se com a insensibilidade, o cinismo e o ódio. São estátuas de bronze frio com olhar ferino. Garcin diz a Estelle: "Darei a você o que puder. Amor, não".
Sartre salienta que a prisão pode ser piscoética, e não apenas física. O talento do filósofo analisa a situação existencial de seres humanos que se trancam pela presença recíproca, mesmo que não haja paredes. Mas, no mundo fechado, Sartre abre uma fenda de esperança. "A gente é o que a gente quer ser." O homem tem a possibildade de inventar a sua vida. E não ser carrasco para outros nem prisioneiro dos outros. A linguagem comunicacional pode reabrir-se. E os "outros" poderão ser irmãos. E não " inferno".

Antropologia
Ousar para reinventar a humanidade
Juvenal Arduini



segunda-feira, 31 de maio de 2010

Admirável Gado Novo

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passam nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar, muito mais do que receber
E ter que demonstrar sua coragem
A margem do que possa aparecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar,
Não voam, nem se pode flutuar,
Não voam, nem se pode flutuar.

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado ê
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado ê
Povo feliz


Zé Ramalho

Daquilo Que Eu Sei

Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza...
Daquilo que eu sei
Nem tudo foi proibido
Nem tudo me foi possível
Nem tudo foi concebido...
Não fechei os olhos
Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah Eu!
Usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo!
Cada vez mais limpo!
Cada vez mais limpo!

Ivan Lins

Começar de Novo

Começar de novo e contar comigo Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio
Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido
Começar de novo...


Ivan Lins

Mais Uma Vez

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem ...



Legião Urbana

Horizonte

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.
Linha severa da longínqua costa
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha
O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp'rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte --
Os beijos merecidos da Verdade. 
Fernando Pessoa